Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Despedindo de Queenstown

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Despedindo de Queenstown

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Queenstown, NZ
Sábado, 29/03/2014

Levantei cedo, tomei meu café e fui conversar com a Paula na recepção do hostel. Como meu voo sairia no final da tarde, queria dicas de atividades para aproveitar o dia. Perguntei se ainda teria tempo para o passeio no Shotover. Ela ligou para a agência, viu os horários e fez o booking. Foi só ir até o The Station Building, no centrinho, dar meu nome e, as 9h45 um shuttle me levou para Arthur Point onde começaria o passeio de barco, na verdade, um jetski gigante que anda em lâminas d'água de apenas 10 centímetros de espessura. Com 750 HP (3 motores de 250 HP) é muito rápido e anda só fazendo drifting (derrapagens controladas), tirando finas milesimais das rochas e dando vários 360°, muuuiiito bom!! 
Veja a filmagem deste meu passeio em http://youtu.be/kvWjYoYURjQ. Estou na lateral da terceira fileira.

Mas, atenção! Também existe um shotover com barcos amarelos que anda no lago da cidade...esse é sem graça! O legal é "voar" nos canyons do rio cercado de paredes escarpadas, rochas enormes e repleto de pedras, e isso é só acontece no Shotover com barcos vermelhos que sai do Arthur Point! Veja a paisagem na foto de abertura desta página! Preste atenção para não errar o shotover!.

Shotover vermelho: Sensacional !!!

Shotover vermelho: Sensacional !!!

O shuttle me levou de volta para o centrinho. Já era quase meio dia e havia combinado de almoçar em um restaurante brasileiro com o Dilton do Black Sheep e o Márcio, um novo amigo brasileiro que tem uma empresa na Nova Zelandia.  A comida caseira estava deliciosa e a companhia excelente! Lá encontramos um jovem de São Bernardo do Campo que jogava futebol na Nova Zelândia. Conversamos muito e entendi porque a pequena cidade de Queenstown tem tantos brasileiros. Aprendi que na NZ não se diferencia trabalho para homem ou mulher, jovem ou idoso. Todos tem oportunidades iguais, respeitadas as suas características. Não existem "cotas". As remunerações são dignas, os sindicatos são opcionais e os salários dignos, isto é, pode-se viver dignamente apenas com seu salário. Conversamos muito sobre os brasileiros que migraram para a Nova Zelândia, suas vidas, expectativas, motivos, erros e acertos. Recebi um oceano de informações! Falarei sobre isso no Contraponto. 

Almoço em restaurante brasileiro na companhia de brasileiros.

Almoço em restaurante brasileiro na companhia de brasileiros.

Depois, perambulei pelo centrinho até abrir o Minus 5 Icebar. Fiquei apreciando os excelentes músicos que se apresentavam na pracinha ao lado do pier. A música era de excelente qualidade. Um dos músicos usava apenas um violão para cantar e tocar ... Led Zeppelin. Sem playback. Fantástico! 

Muito entretenimento no pier. Música de alta qualidade! Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones, Doors, Who...outro nível!

Muito entretenimento no pier. Música de alta qualidade! Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones, Doors, Who...outro nível!

Reparem no canto inferior esquerdo um submarino-tubarão que afunda até dois metros e sai da água até cincos metros de altura. Essa atração chama Hydro Attack e custava NZD169. Achei caro e, como tinha acabado de almoçar, também achei prudente deixar essa experiência para uma outra ocasião.

O famoso Minus 5 Icebar abriu pontualmente à 14h00. Quando entramos a temperatura era -8,3°C. Como podem ver nas fotos abaixo, tudo feito de gêlo: móveis, estátuas, paredes, bancos, mesas, balcão ... tudo parecia vidro. Para entrar disponibilizam roupas adequadas e luvas. O problema era que, vestindo luvas, só conseguia tirar fotos usando a ponta do nariz, pois o touch da tela do celular não funcionava com luvas. Foi cômico! No bar, serviam basicamente vodka Absolut, que não congelava, mas tomei suco ... em copo de gêlo. Afinal ainda iria dirigir. Uma visita interessante.

Minus 5 Icebar - Praticamente tudo feito em gêlo, até copos e bancos.

Minus 5 Icebar - Praticamente tudo feito em gêlo, até copos e bancos.

Voltava para o hostel para pegar minha mochila, o carro e ir para o aeroporto, quando recebi uma mensagem das minhas companheiras chinesas, Ting e Nina, desejando boa viagem de volta, agradecendo novamente pela carona e informando que  já tinham arrumado emprego e um hostel para ficar por NZD 100 por semana. Como iriam ganhar NZD14,25 por hora e trabalhar 40 horas por semana, fariam NZD570 por semana (fora as horas extras que pagam até três vezes mais por hora) e, financeiramente, já estava tudo OK. Simplificando, cada uma delas iria receber R$1.175,00 por semana que, considerando 52 semanas por ano, seria R$5.100,00 por mês! Essa foi a última troca de mensagem com elas em solo neozelandês, mas continuamos conversando pelo Facebook até hoje.

Banho tomado, cabelo lavado, sem pentear desde o dia 14/03, peguei a mochila, me despedi dos vários amigos que havia feito no Black Sheep e fui para o aeroporto onde entreguei carro as 16:35.
As 17h35 estava embarcando no voo NZ646 da Air New Zealand com destino à Auckland. 

 

Lição aprendida #34
É função do governo prover para todo cidadão, indiscriminadamente, Educação de qualidade e oportunidades de trabalho com remuneração digna e proporcional à escolaridade, para incentivar o aprimoramento educacional e cultural que levará à melhoria contínua da qualidade de vida da sociedade.

Contraponto
Em 1991, o brilhante futurólogo Peter Schwarz em seu best seller A Arte da Visão de Longo Prazo  já alertava o Brasil: "O jovem brasileiro, como todo jovem, é sonhador e ambicioso. Se não for dado a ele condições de ascender socialmente pela educação e trabalho, ele irá  buscar outros meios para alcançá-la".

Cumprindo a "profecia" de Peter Schwartz, uma parte do jovens brasileiros, desencantada com a pouca chance de subir na vida pelo caminho tradicional, isto é, com estudo e trabalho, ingressou pelo tortuoso caminho, muitas vezes sem volta, da criminalidade e das drogas.
Outra parte, também desencantada pela falta de boas oportunidades e pela redução contínua da qualidade de vida no Brasil, decidiu tentar a vida em outros países. Para minha surpresa, descobri que dos pouco mais de 15 mil habitantes de Queenstown, dois mil eram BRASILEIROS!

Aproveitei para conversar com muitos brasileiros de diferentes regiões do Brasil e faixas etárias que haviam se estabelecido em Queenstown. Perguntei a todos se sentiam saudades do Brasil, se voltariam ou não para o Brasil e os motivos.
As respostas foram unânimes: Sim, todos sentiam saudades do Brasil, mas não voltariam mais para o Brasil. Apenas para visitar parentes e amigos. E os motivos coincidiam: Segurança e Dignidade do trabalho.

1. Para a segurança explicavam que, depois de se acostumar a ver qualquer criança de 5, 6 ou 7 anos de idade, ir sozinha e a pé para a escola - e, caso a mãe a leve, a diretora da escola vai perguntar se ela ou a criança tem algum problema - e a nunca mais trancar as portas da sua casa, nem quando sai em férias... fica impossível voltar para o Brasil.

2. Quanto à dignidade no trabalho contavam que, mesmo formados em curso superior, ao tentar um emprego no mercado de trabalho brasileiro as remunerações oferecidas eram tão baixas que não pagariam o aluguel de uma quitinete em São Paulo. Na Nova Zelândia e Austrália, as remunerações aumentam com a escolaridade e um jovem no ensino médio  ganha NZD14,25 por hora,  NZD570 por semana ou NZD2.470 por mês, ou aproximadamente R$5.700. Assim, poder bancar todas as suas despesas com estudo, moradia, alimentação, passeios, entretenimento e ainda poupar para suas férias ou despesas extraordinárias. Ainda jovens passam a viver com seus próprios recursos reduzindo significativamente ou acabando com a dependência financeira de seus pais, algo raro no Brasil.

Tive que consolar uma jovem brasileira que chorava copiosamente pelo risco eminente de voltar para o Brasil pela possível não renovação do visto de permanência. Para os jovens brasileiros, ter que voltar para o Brasil é considerado uma derrota humilhante enquanto que para jovens alemães, chineses, franceses, canadenses, coreanos o objetivo pessoal era voltar para seu país, compartilhar a experiência vivida e contribuir para a construção do futuro da nação.

Foi uma constatação previsível, mas deprimente, de que estamos perdendo a nata de nossa juventude para outros países. Enquanto o governo neozelandês lastima e tenta "conter a perda do potencial humano de maoris que migram para a Austrália em busca de melhores salários", o Brasil sequer notou o êxodo crescente de seus filhos mais capacitados.
Que futuro tem uma nação que não cativa seus jovens?

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