Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Conselho aos Pais em Franz Josef

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Conselho aos Pais em Franz Josef

E-MAILiT

Conhecendo Adolescentes Globais

Franz Josef, NZ
Terça-feira, 25/03/2014

Dia do esperado passeio de helicóptero (chamado helihike) que sobrevoaria os 3.754 metros do Mont Cook. Para ir de carro seria uma viagem de quase 500 quilômetros, mas voando seriam apenas 25 quilômetros.

Para minha decepção acordei com o barulho de ...Chuva! Sem pressa, tomei meu café da manhã e caminhei, vestindo meu agasalho impermeável, imprescindível para um backpacker,  até o local de onde deveríamos sair para o passeio de helicóptero. Perguntei se o voo iria ser realizado e o próprio piloto explicou que o risco de se tentar sobrevoar o Mont Cook ou as montanhas da cordilheira com chuva e pouca visibilidade era muito grande. Explicou que sem condições perfeitas, os voos são cancelados. Mas, deixou um fio de esperança ao dizer que, como na Nova Zelândia pode-se ter as quatro estações em um mesmo dia, o tempo ainda poderia melhorar. E, se não fosse tarde, pois o passeio é longo e os helicópteros tampouco voam com pouca iluminação, o passeio poderia ser realizado.

Caminhei pelas poucas ruas da cidade torcendo para que o tempo melhorasse. O tempo continuou fechado, com uma fina garoa caindo até que, as 14h30, informaram que os voos daquele dia estavam definitivamente cancelados. Uma pena, pois não poderia voar no dia seguinte. A empresa prontamente me entregou uma carta informando sobre o cancelamento do voo para que a NZega que havia contratado o passeio para mim realizasse o reembolso. Fotografei o documento e enviei a foto por email para a NZega que providenciou o ressarcimento.

Franz Josef - Depois da chuva uma manhã cinzenta e garoenta

Franz Josef - Depois da chuva uma manhã cinzenta e garoenta

Como não teria outra oportunidade para sobrevoar as geleiras de Franz Josef, procurei no mapa um glacier (geleira) próximo de Franz Josef e descobri que na cidade vizinha, Fox Glacier, que ficava a menos de 24 quilômetros de Franz Josef, também tinha uma grande geleira. Peguei o carro e rapidamente cheguei à Fox Glacier que tem apenas 400 habitantes.

Franz Josef para Fox Glacier apenas 23,6 Km. E o Mont Cook logo abaixo.

Franz Josef para Fox Glacier apenas 23,6 Km. E o Mont Cook logo abaixo.

Como Franz Josef, Fox Glacier é um centro de turismo de aventura. Chegando ao "perímetro urbano" sai da Highway 6 para conhecer um pouco a cidade e encontrei duas chinesas acenando com uma placa, pedindo carona para Queenstown. Parei o carro e disse que também iria para lá, mas só no dia seguinte. Elas pediram para ir comigo, pois, para elas, não seria problema algum ficar mais uma noite em Franz Josef e seguir comigo no dia seguinte.

Minhas novas companheiras, Ting e Nina, tinham 25 e 26 anos respectivamente, e tinham se formado, na China, em Letras e Contabilidade. Estavam indo para Queenstown para trabalhar e conhecer outra região, exatamente como fizeram em Franz Josef, onde haviam ficado por alguns meses. Obviamente, foram minhas guias na visita à Fox Glacier, que conheciam muito bem. (Vejam Fox Glacier e suas geleiras que, não parecem, mas têm mais de 10 metros de espessura e minha novas companheiras nas fotos abaixo).

Fox -Glacier - A geleira gigante, minhas novas colegas de viagem, a carta de reembolso e a natureza surpreendente

Fox -Glacier - A geleira gigante, minhas novas companheiras de viagem, a carta de reembolso e a natureza surpreendente

Ao voltarmos para Franz Josef a mudança climática era surpreendente. Veja o tempo que nos esperava em Franz. Realmente, vivem as quatro estações do ano em apenas um dia na Nova Zelândia!

Franz Josef - Fim de tarde e anoitecer.

Franz Josef -  Um show de cores e luzes no fim de tarde e ao anoitecer.

Com minhas novas amigas, profundas conhecedoras da pequena cidade, visitei vários pontos turísticos interessantes. Fomos ao jardim onde vivem as  glow worms (minhocas luminosas verdes), que brilham muito no escuro. Fomos novamente à hot pools, passeamos pelo vilarejo, visitamos um produtor artesanal de acessórios e bijuterias feitas com pedras da região. Notei que mesmo em caminhos bem escuros como na floresta das glow worms podíamos caminhar sem olhar para o chão. Todas as calçadas e caminhos eram preparados para pedestres. Não era necessário se preocupar com eventuais obstáculos, pois o piso seria sempre apropriado. Lembrei da minha mãe, dona Maria, que dizia que as calçadas no Brasil não eram construídas para pedestres, muito menos para idosos.

Ao voltarmos para o centrinho de Franz Josef, minhas duas novas amigas se instalaram no hostel ao lado do YHA. Fui para o YHA tomar um banho.  Combinamos de jantar juntos e quando cheguei para encontrá-las elas vieram com uma outra garota que haviam acabado de conhecer, Marie, uma típica alemã de 18 anos, loira de olhos azuis, que estava em work vacation.

Franz Josef - última noite, jantar com novas amizades,

Franz Josef - última noite, jantar com novas amizades -  Ting, Nina e Marie.

Elas me levaram ao restaurante tailandês que a Ting tinha trabalhado nos últimos meses e deixado o emprego no dia anterior. O lugar era muito bonito e pitoresco, pois passarinhos audaciosamente voavam dentro do restaurante e pousavam nas cadeiras. A Ting sugeriu os pratos e bebidas e todos acatamos. A comida era muito boa agradando a todos.
Durante o jantar conversei muito com elas para entender suas motivações, seus ideais. Marie, que já havia feito work vacation (férias trabalhando) por dois meses no Canadá quando tinha 15 anos, perguntou para as chinesas por que não procuravam trabalho nas profissões em que haviam se formado, Letras e Contabilidade. Muito sensata a alemãzinha. As chinesas disseram que, vagas para as suas profissões exigiam trabalhar por períodos mais longos e tinham um roteiro a cumprir na Nova Zelândia antes de voltar para a China. Sensata resposta, também.
Elas contaram que a China só permite intercâmbio de seus jovens com Austrália, Nova Zelândia e Canadá - coincidentemente os três países que, juntos, tem oito entre as dez melhores cidades para se viver no mundo. Querem bons exemplos para seus adolescentes.
Os pais, tantos chineses como europeus, pagam apenas as passagens de ida e volta e dão mil dólares para os filhos. Sustentam apenas o tempo necessário para que encontrem um emprego e possam se manter sem auxílio dos pais. Isso faz parte da educação financeira dos adolescentes.
Ao perguntar a elas o que iriam fazer após suas viagens, todas foram taxativas - voltar aos seus países para compartilhar suas experiências e tocar suas vidas.

Apesar de serem muito controladas em suas despesas, elas queriam me dar o jantar de presente em agradecimento pela carona. A conta deu 75 dólares. Contribui com 50 dólares e deixei que as três pagassem o restante. Elas protestaram, mas não voltei atrás. Disse que foi pelo tour na cidade.

Lição aprendida #29
A formação de cidadãos íntegros, responsáveis e comprometidos com seus países e com a humanidade pode ser alavancada pelo exemplo de sociedades com alta qualidade de vida, respeito à liberdade e valorização do trabalho.

Contraponto
Por que você não planeja deixar seus filhos viverem por seis meses, um ano ou mais, no exterior? Escolha uma ou mais opções entre:

  1. Insegurança quanto à integridade física de seu filho? Desconhecimento da infraestrutura local: saúde, educação, segurança, transporte, moradia?
  2. Impossibilidade financeira para sustentá-lo por tanto tempo?
  3. Imaturidade do filho? Sem o apoio dos pais ele seria incapaz de tomar decisões acertadas?

Vamos lá. 

  1. A primeira opção é completamente descabida. O Brasil é o país com o maior número de mortes violentas e maior consumo de crack no mundo, o segundo em cocaína e entre os primeiros em álcool. É um dos mais corruptos. Seu sistema de saúde é um desastre e o sistema educacional muito deficiente. Não tem transporte coletivo de qualidade e boas moradias estão pela hora da morte. Portanto, vamos para a segunda opção.
  2. A única alternativa seria os pais sustentarem o filho durante toda a estadia? Por que ele não poderia, por exemplo, ... trabalhar? Isso mesmo, trabalhar. Como fazem os filhos em países do primeiro mundo! Se seu filho já tem 16 anos e, sozinho,  não conseguiria se sustentar, essa imaturidade financeira é decorrente de erros na educação dada pelos pais e não pela escola, que muitos cismam em culpar.
  3. E a terceira opção? Simples. Se seu filho é uma pessoa normal, mas não consegue tomar decisões corretas em sua vida, sua imaturidade vem de falhas na formação dada por pais e pelo sistema educacional que o impedem de pensar por si só. Talvez, um certo distanciamento possa ser benéfico.

Portanto, qualquer que tenha sido a sua desculpa para não permitir que seu filho participe de intercâmbios mais extensos do que três semanas em um curso de inglês nos Estados Unidos ou Canadá, o problema pode estar em vocês, pais. 

E como Einstein já dizia "Insanidade é continuar fazendo as mesmas coisas esperando resultados diferentes".
O convívio com sociedades mais evoluídas do que a brasileira pode ser importante contribuição para que seu filho se torne o cidadão íntegro e responsável que sonhavam quando ele nasceu.
Ainda há tempo!

 

2 Comments

  1. EXCELENTE MATÉRIA…Amigo Miguel (MIGUÉ como fala o mano Silvinho).

    • Obrigado, Renato. Se puder e quiser compartilhe, pois é preciso aumentar a massa crítica … assinado Migué

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>