Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Atravessando os Alpes Neozelandeses

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Atravessando os Alpes Neozelandeses

Christchurch to Greymouth, NZ

24/03/2014

Deixando Christchurch. Sai do hostel, propositalmente sem tomar meu breakfast e fiquei esperando o shuttle que iria me levar para a estação onde embarcaria "em uma das viagens de trem mais bonitas do mundo" pela TranzAlpine. Poderia dirigir 241 Km e levar três horas de carro, mas, seguindo o conselho da NZega, preferi viajar por quatro horas e meia de trem para poder apreciar a paisagem ao cruzar os Alpes Neozelandeses e pegar o carro só em Greymouth.

Ilha Sul - da costa leste para a costa oeste

Ilha Sul - da costa leste para a costa oeste

Pontualmente o shuttle chegou e, em poucos minutos, me deixou na estação, como podem ver na foto abaixo, muito bonita, moderna e simples. 

Estação da Tranzalpine - um primor

Estação da Tranzalpine - um primor

O trem partiu à 09h10. Soube que problemas climáticos ou manutenção na linha férrea podem alterar os horários. Afinal, o trem sai do nível do mar, sobe até quase mil metros, passando ao lado de montanhas com mais de 3 mil metros de altura, como o Mont Cook/Aoraki com seus 3.754 metros, e desce novamente para o nível do mar, tudo isso em menos de 150 quilômetros!
Na estação a sinalização para o passageiro é clara e abundante. A limpeza e conforto dos vagões impressionam. A equipe de bordo era uma simpatia. Vejam nas fotos abaixo o interior do meu vagão, coincidentemente onde ficava a lanchonete. Reparem no banheiro - qualidade e limpeza.

TranzAlpine - muito conforto, várias opções de breakfast e vistas maravilhosas

TranzAlpine - muito conforto, várias opções de breakfast e vistas maravilhosas

Assim que o trem começou a andar, caminhei até a lanchonete e fiz amizade com as atendentes. Michelle, uma das garçonetes, era casada com um café dealer que conhecia bem o Brasil. Enquanto outros passageiros chegavam pelas portas automáticas que ligavam os vagões, fiquei conversando com ela sobre as características do povo neozelandês. Ela disse que o kiwi é gentil e prestativo porque só assim sobreviveriam na Nova Zelândia. Um povo unido para enfrentar os desafios da natureza. Ela terminou dizendo Kia ora!  Conhecia a expressão, mas não entendia seu significado.Ela explicou os múltiplos significados deste cumprimento maori: Kia Ora! Basicamente cumprimentar, saudar, despedir e desejar coisas boas. Uma simpatia!

Pedi meu café da manhã (veja na foto acima), voltei para o meu assento e coloquei os fones de ouvido para acompanhar as informações sobre as regiões que iríamos passar. A viagem, em linha reta, teria menos de 150 Km, mas com as montanhas aumenta para 241 Km pela rodovia, não saberia dizer quanto quilômetros tem a ferrovia, mas acredito que seja semelhante à rodovia.

Na parte inicial da viagem, pelos Canterbury plains,  saindo da área urbana de Christchurch até os início dos Alpes, só se vê fazendas, pois, por questões climáticas, todas ficam abaixo de 100 m de altitude. O nível de mecanização das fazendas é bastante alto. Vi, como no Brasil, muito poucas pessoas trabalhando em áreas muito grandes. Neste trecho passamos por algumas pequenas e lindas cidades, moradias dos agricultores e pecuaristas da região.

Início da viagem - fazendas e paisagens bucólicas

Início da viagem - fazendas e paisagens bucólicas

Terminada a parte agriculturável da Ilha Sul, começamos a subida até o Arthur's Pass, a 900 metros de altitude. Lá paramos e descemos do trem para pegar um ônibus, enquanto o trem seguiria por um túnel. A descida que teríamos que fazer exigiria a troca da locomotiva, pois é muito íngreme.  

TranzAlpine - passando por Arthur's Pass

TranzAlpine - passando por Arthur's Pass

Pela vista e passeios que se pode fazer, valeria ficar um dia em Arthur's Pass, mas não seria dessa vez.
Durante a viagem conversei bastante com uma senhora de Auckland que fazia turismo pelo país. Com mais de 70 anos de idade, ela viajava sozinha por todo o país sem nenhum temor. Segundo ela. em todos os lugares, para qualquer emergência, sempre haveria quem pudesse atendê-la.
Aproveitei para lanchar no trem, pois, em Greymouth, iria pegar o carro e dirigir por 280 km até a cidade de Franz Josef.

Lição aprendida #27
Com infraestrutura adequada, segurança e educação, mesmo regiões inóspitas podem desenvolver atividades de turismo.  
Apesar da pequena área do país, 270 mil quilômetros quadrados, e muitas regiões inóspitas, o turismo representa atualmente 13,3% do Produto Interno Bruto neozelandês, sendo uma das principais fontes de receita e alavancas da economia do país. E a meta do governo é aumentar sua participação para 22% do PIB até 2025.

Contrapartida
O Brasil, tem mais de  8 milhões de quilômetros quadrados, sete mil quilômetros de costa, praias maravilhosas, regiões montanhosas, grandes bacias fluviais, pantanais, fauna e flora exuberantes. Ou seja, a natureza fez a sua parte para que o país se tornasse o destino perfeito para o turismo mundial.

Mas, as lideranças do país, ao longo de sua história, não criaram as condições necessárias para que o turismo se desenvolvesse. O transporte ferroviário, tão utilizado no mundo, seria perfeito para mostrar ao turista, nacional ou estrangeiro, a beleza de nosso país. Mas, as ferrovias brasileiras, basicamente usadas para transporte de carga, sofrem com a falta crônica de investimentos que obriga os trens a andarem a baixa velocidade e, pasmem, ter parte de suas cargas roubadas com o trem em movimento! Imaginem o que poderia acontecer com trens repletos de turistas estrangeiros com suas máquinas fotográficas, celulares, dólares, tênis, roupas bonitas trafegando lentamente por certas regiões do Brasil!
Portanto, além da falta de infraestrutura, tampouco temos educação e segurança para que o turismo se desenvolva!

Todos conhecem a piada sobre o "povinho" que Deus ia colocar em terras brasileiras para compensar todas as vantagens naturais que havia dado ao Brasil e não aos outros países. Certo?
Mas, houve uma leve distorção no texto desta piada. A grande maioria do povo brasileiro é honesto e trabalhador e não mereceria ser citado nesta piada.
A frase final de Deus teria sido:
"Com poucas exceções - para não ser muito duro - espere para ver as lideranças que vou colocar nesse país!"

3 Comments

  1. Adorei a viajem com vc, com vc tem fotos lindas e sua maneira de expressar me lembra Fernando Sabino, com êle eram só sonhos. Obrigada.

  2. Você me levou de volta á infância. Morando em Santo André, eram frequentes as viagens de trem à Santos, com parada em Paranapiacaba. Neste país de “malucos” deveríamos ter evoluído tecnologicamente para algo parecido com a sua narrativa. Ao contrário, descemos os degraus e o sistema ferroviário quase desapareceu. Por isso, quando dizem que precisamos de trem bala, resumo dizendo: precisamos de trens.

  3. A viagem de trem deve ter sido linda, colírio para olhos, refrigério para a alma…e, sobre os seus pontos de reflexão… questão cultural, não é meu amigo?, vem lá de longe… consequência da educação… q depende da cabeça das lideranças…

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