Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Uma praça em Christchurch

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Uma praça em Christchurch

Christchurch, NZ
23/03/2014

Voltamos de Akaroa para Christchurch e o ônibus nos deixou no mesmo local que partimos, o Canterbury Museum. Como já passava das 19h00 perguntei para a recepcionista do hostel onde poderia jantar ali por perto e ela indicou um pub chamado Pegasus que ficava na Oxford Terrace, a uns 400 metros da YMCA.

YMCA em Christchurch

YMCA em Christchurch

Para chegar ao pub teria que cruzar o bonito rio Avon (na foto de abertura deste post). Para atravessá-lo passei ao lado de uma pequena praça e cruzei uma ponte na Montreal Street. Mesmo escurecendo a vista da praça era bem bonita, com podem ver na foto abaixo.

A pequena praça ao anoitecer

A pequena praça ao anoitecer

pub era bem agradável e, após fazer meu pedido, fiquei conversando com a garçonete que era inglesa e havia morado dois anos na Coréia do Sul, segundo ela, o país com a maior sensação de segurança entre todos os que conhecia. Mesmo assim, entre os vários países que havia conhecido, a Nova Zelândia ainda seria sua opção para morar.

O jantar, acompanhado por um copo de um excelente vinho australiano, foi muito bom. E da minha mesa no restaurante podia apreciar a beleza da praça do outro lado da rua. Vista da praça e do restaurante.

Ao sair do restaurante já havia anoitecido e no caminho de volta para o hostel cortei caminho passando por dentro da pequena praça ao lado do rio. Mesmo à noite era fácil e seguro caminhar pela praça, pois havia uma interessante iluminação indireta mostrando o caminho (veja na foto abaixo).

Veja a iluminação indireta sob os bancos da praça

Veja a iluminação indireta sob os bancos da praça

Na praça vi várias placas colocadas e, por curiosidade, fui ler uma delas e, gostando do que vi, acabei lendo e fotografando todas elas (na figura abaixo mostro seis delas)

Praça - Seis das nove placas explicativas

Praça - Seis das nove placas explicativas

As placas explicavam detalhadamente o projeto para melhoria da iluminação da praça. E cada placa abordava um ponto.

  • O objetivo do projeto era permitir que pessoas de todas as idades e mesmo com limitações físicas pudessem passear até mais tarde sem risco de acidente.
  • A iluminação seria colocada sob os bancos e lajes para não incomodar os pássaros que costumam dormir nas árvores da praça. Apenas algumas árvores específicas receberiam iluminação de baixo para cima.
  • O uso de LED era para economizar energia e manutenção.
  • Quais as plantas haviam na praça e porque a nova iluminação seria segura para elas.
  • Quais pássaros costumavam frequentar a praças e como teriam seu habitat respeitado etc

E em todos os painéis havia uma data limite para que o cidadão desse sua opinião sobre o projeto (a faixa lilás nessas placas indicava que o prazo para votação já havia terminado). Realmente, fiquei impressionado com a quantidade e qualidade das informações apresentada nos nove painéis expostos na pequena praça.

Ao chegar ao hostel perguntei para a recepcionista se era comum a prefeitura pedir a opinião da população sobre seus projetos e ela, surpresa com a pergunta, disse que a prefeitura não faz nada sem consultar a sociedade - tudo é discutido com a sociedade antes de ser feito.

 

Lição aprendida #26
Como na Grécia antiga, de onde vem a expressão democracia grega, na Nova Zelândia muitas decisões são tomadas pela população, havendo aprovação apenas se a maioria assim decidir. O custo deste processo conduzido pelos City Councils  é baixíssimo, capta sugestões interessantes (nós somos mais inteligentes do que eu!) e agrada à maioria. Simples não?
Não precisam de presidente, 39 ministérios, tampouco de centenas de deputados e senadores nem de milhares de vereadores. Usam a força e inteligência da sociedade para analisar, decidir e construir uma cidade, um estado e um país melhor.
Eficiente, simples, rápido, barato e DEMOCRÁTICO, não?

Contraponto
Quem de nós foi consultado sobre a colocação de mais faixas exclusivas para ônibus em sua cidade? Ou sobre a demarcação de ciclovias? Ou instituir rodízio para automóveis? Ou sobre construir estádios bilionários para a Copa do Mundo? Ou sobre financiar com dinheiro recolhido do povo brasileiro a construção de portos em Cuba ou aeroportos na Venezuela? Ou aumentar o número de ministérios? Ou perdoar a dívida de ditadores africanos? Ou sobre encargos trabalhistas? Ou elevar a carga tributária? Ou sobre quitar uma dívida com o FMI que cobrava juros abaixo de 2,5% ao ano em vez de reduzir uma dívida interna que, na época, custava 25% ao ano?

Vivemos uma pseudo democracia capenga e estamos há anos-luz da chamada democracia grega.

Poderia elencar vários motivos para que isso esteja ocorrendo, mas a causa principal é a baixíssima escolaridade do brasileiro, comprovada na avaliação PISA de 2013 ao mostrar que apenas um em duzentos alunos egressos do ensino médio brasileiro consegue ler e compreender um texto simples. Portanto, de nada adiantaria colocar placas explicando projetos, pois poucos conseguiriam ler, um número ainda menor entender o que estaria escrito nelas e, se alguém ainda quisesse dar uma opinião ou sugestão, tampouco encontraria um canal prático e eficiente para encaminhá-la.

Repetindo o último post: Bom nível educacional é pré-requisito para a democracia. Definitivamente, não existe Democracia sem Educação.

Portanto, hoje, no Brasil, apenas brincamos de democracia. Achamos que poder eleger nossos representantes é democracia...doce ilusão.
Vivemos o famoso "me engana que eu gosto".

5 Comments

  1. Miguel, quanto mais eu leio sobre sua experiência na Nova Zelândia, mais incomodado fico com o nosso Brasil. Nova Zelândia é aberta à imigração,mas sinto muito que com meus poucos 58 anos eu não seja mais interessante para eles.
    O jeito é lutar para que meus futuros netos tenham um país melhor e mais igualitário para viver.

    • “Em tempos de grande velocidade evolutiva não se deve mais medir a idade das pessoas cronologicamente, mas pelo nível de dor que ela experimenta ao se deparar com uma nova idéia”. Reavalie a sua idade a partir desse conceito.

      • Miguel, eu me sinto e considero muito jovem ainda. As agências regulatórias tanto da Nova Zelândia como da Austrália deveriam rever os critérios para imigração. 😉

  2. Olá Miguel,
    Mais um texto repleto de ensinamentos, sem dizer o quanto é agradável ver as fotos.
    Estes textos poderiam render inúmeros parágrafos, ou se fosse pessoalmente longas horas de conversa.
    Resolvi colocar o comentário aqui, pois, como disse em outra ocasião estou acompanhando seus textos sobre “Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia”.
    Dificilmente nós (ou pelo menos eu que já passo dos 40…rs) conseguiremos ver o país chegar neste nível, mas a importância destes textos e experiências são os reflexos para gerações futuras.
    São muitas lições que estes textos nos proporcionam, mas acredito que a grande lição está em mostrar que é possível construir uma nação onde todos tenham dignidade.
    Repasso seus textos para todos que conheço, mas principalmente para as crianças que me cercam, pois acredito que com isso possamos deixar o que realmente tem valor: Educação, respeito, conhecimento e principalmente caráter, ou seja, um legado de princípios básicos, mas que faz toda diferença.
    No filme Gladiador dirigido por Ridley Scott há uma frase que acho sensacional: “O que fazemos em vida ecoa na eternidade”.
    Parabéns mais uma vez!

  3. Adorei tudo mas, teria milhões de perguntas e argumentos para ouvir o Prof, e mudar de idéia se preciso. Sobre a medida da idade, eu com 69 prefiro medir pelo nível do bom estímulo ao me deparar com novas idéias úteis e não fúteis, como tem sido ultimamente. Obrigada

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