Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Little River

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Little River

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Christchurch e Little River, NZ
23/03/2014

Foi o primeiro dia que acordei com o despertador. Era 7h30. Acho que estava entrando no fuso horário. Mas, mesmo tendo dormido bem acordei com as costas doendo. Tomei uma ducha e fiz meu breakfast no quarto. Foi inevitável fazer a análise da relação "Prazer versus Sacrifício", isto é, o prazer de tomar um saudável café da manhã com cereais, iogurte, torradas com requeijão, kiwi, ameixa e suco de laranja  versus a dor nas costas por ter carregado tudo isso do supermercado até o hostel. Concluí que, definitivamente, havia valido o sacrifício!
Após devolver prato e talheres que havia pego no Guest Kitchen desci e fui para a porta o YMCA para  esperar o ônibus do tour para Akaroa que havia contratado. Como o tempo passava e o ônibus não chegava, fui checar no voucher e, só então, vi que o local de saída da excursão era na frente do Canterbury Museum! Corri e ainda cheguei a tempo. Foi um alívio vê-lo me aguardando. Ainda bem que era perto. Ufa! Quase perco a excursão.

No caminho para Akaroa - Extensas áreas para agricultura e pecuária

No caminho para Akaroa - Extensas áreas para agricultura e pecuária

Saímos de Christchurch pela State Highway 75 e vi muitas fazendas com plantações de soja e rebanhos de bois e ovelhas - a Nova Zelândia tem 35 milhões de ovelhas. Em uma fazenda ao lado da estrada, o ônibus parou para que víssemos o show de um único cachorro colocando, sozinho, um rebanho inteiro de ovelhas em um cercado. Um show de eficiência.

No caminho para Akaroa nosso ônibus deu uma parada em Little River, uma minúscula cidade com cerca de mil habitantes, que vivia basicamente de atividades agro pastoris. Ostenta, com muito orgulho, seu Little River Service Center and Library (foto) e atrai muitos ciclistas, alguns com bicicletas de dois lugares.

Little River- Service Center and Library

Little River- Service Center and Library e 2-seat-bikes

Mesmo com menos de mil habitantes Little River também tem galerias de arte e sua biblioteca. Cultura e Arte sempre presentes! Na parada do ônibus, um carrinho de mão oferecia frutas cuja renda seria usada para colocar mesas e cadeiras de madeira na praça da cidade. E os doces produzidos na cidade eram muito gostosos. Em ambos os casos, bastava pegar o que desejasse e deixar a quantia equivalente em uma caixinha ao lado.

Little River - Parada do ônibus e produtos à venda

Little River - Parada do ônibus e produtos à venda

As atividades agro pastoris representaram a principal fonte de receita da cidade até pouco tempo. Mais recentemente a cidade passou a investir em turismo e os resultados já estão aparecendo. Para incentivar o turismo e atrair quem gosta de se exercitar ou de apreciar a natureza foi criado o Christchurch to Little River Railtrail um passeio de bicicleta com 49 quilômetros para ir até Little River e outros 49 quilômetros para voltar para Christchurch. Uma parte do trajeto é feito em ciclovias e outra, temporariamente, na rodovias enquanto apreciam a flora, fauna e paisagens ouvindo histórias da região.

Passeio de bicicleta de Christchurch a Little River

Passeio de bicicleta de Christchurch a Little River

O turismo passou a ser uma das principais fontes de receita da cidade que, para ampliar o número de acomodações para turistas na cidade, adotou outra solução interessantíssima - o  SiloStay, pequeno hotel construído a partir de silos de grãos. Vejam detalhes do projeto:

SiloStay - Detalhes do projeto

SiloStay - Detalhes do projeto

E vejam nas fotos abaixo, a obra pronta. Apreciem a criatividade para suprir a necessidade de acomodações para turistas na cidade e região. Repare que as varandas já servem para guardar as bicicletas.

SiloStay - Hospedagem e atração turística

SiloStay - Hospedagem e atração turística

Lição aprendida #24
Originalmente, as atividades econômicas em Little River eram extração de madeira e agro pastoris. Com a redução da primeira e inevitável mecanização da segunda era preciso achar uma nova fonte de renda para a população local. A comunidade e as lideranças locais estudaram, discutiram e aprovaram a ideia de transformar o turismo em sua principal fonte de receita. Com pouco dinheiro, mas muita criatividade, organização, planejamento e trabalho, a matriz econômica da comunidade foi mudada. E a cidade já colhe os frutos de seu trabalho.

Contraponto
A mudança do perfil da matriz econômica brasileira é semelhante à da ocorrida na pequena Little River, isto é, mesmo com maior participação da produção de commodities  minerais ou agro pecuárias no PIB, essas atividades não geram mais empregos como antigamente.
A adoção de soluções simples e eficazes como as de Little River em cidades brasileiras esbarraria em dois grandes obstáculos:

1. A imposição de interesses nacionais sem analisar e respeitar os interesses locais. Por exemplo, a pequena cidade de Itirapina, no interior do Estado de São Paulo, por possuir represas, corredeiras, clima ameno e excelente qualidade do ar, teria vocação natural para o turismo. Mas, foi a escolhida pelos governos estadual e federal para abrigar dois presídios que hoje alojam cerca de três mil detentos, a maior parte de alta periculosidade. Sendo segurança um dos pre-requisitos para o turismo, o sonho da cidade de transformar-se me um grande polo do turismo de aventura  foi enterrado com a construção dos presídios. O país e o estado têm onde alojar seus presidiários e a pequena cidade não tem mais futuro. É justo?

2. A baixa qualidade de serviços públicos essenciais para o turismo como Educação, Saúde, Segurança, Transporte e Infraestrutura. Como está, não há como investir no desenvolvimento do turismo regional.

Soluções existem. Mas exigem visão de futuro, planejamento e muito trabalho.

Até  a próxima!

 

4 Comments

  1. Muito interessante o artigo! Gostei de saber sobre as iniciativas na Nova Zelândia e o modo de vida da população. Serve de exemplo para o Brasil, pena que aqui existem tantos empecilhos. Abraços!

    • Foram tantos exemplos que resolvi escrever este blog, Vicky. Muitos são tão óbvios que pareciam “tapas na cara”.
      Espero que continue acompanhando e comentando, pois esse é o meu objetivo com este blog. Um abraço!

  2. Penso que o Brasil vive um momento ou um período que gostaria que não existisse. O bem comum, valores e um desejo de se tornar um país desenvolvido não se observa. No entanto, acho que esse desejo latente está dentro das pessoas, como o senhor. Os nossos governantes ainda pensam em manter o controle das pessoas e o poder a qualquer custo.
    O Brasil, país abençoado por Deus com inúmeras potencialidades, por falta de visão ou uma visão distorcida, eivada de ideologias, por parte de políticos, que tem como único objetivo a manutenção do poder.
    Os jovens devem acordar. Os empresários estimular o uso das potencialidades desse imenso país. Óbices como carga tributária elevada, corrupção e burocracia excessiva impedem o nosso desenvolvimento. Se a população soubesse o poder que tem, com certeza estaríamos melhor.
    Penso que devemos estimular as pessoas de bem a falar com outras pessoas de bem e iniciar uma revolução silenciosa e começar as mudanças que necessitamos para sermos realmente uma uma nação. A principal delas é estimular a educação, base de tudo.

    • É preciso despertar esse gigante adormecido, anestesiado por um governo que só permite que as (poucas) boas notícias sejam veiculadas.Quando o que despertaria uma nação seria a consciência da necessidade de mudança e de que só com a colaboração de muitos se pode construir um futuro melhor para a nação.

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