Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Carros em Christchurch

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Carros em Christchurch

E-MAILiT

Queenstown, NZ
22/03/2014

Perto da catedral vi o projeto da reconstrução da praça exposto para o público em um painel que explicava as alterações e as novas construções - como o monumento metálico em forma de cone invertido mostrado na foto abaixo - que estavam sendo feitas para mantê-la bonita e agradável enquanto não se decidia o que fazer com o que sobrou da catedral. Estão fazendo de tudo para recuperá-la mas, talvez tenha que ser demolida.

Visão panorâmica da praça em reconstrução

Visão panorâmica da praça em reconstrução

Como eu iria ficar dois dias na cidade, além de lavar algumas roupas, resolvi comprar alimentos já que o quarto do hostel dispunha de uma pequena, mas bem equipada, cozinha. Na praça da catedral perguntei para a atendente de uma loja onde poderia comprar e ela indicou um supermercado que ficava em um shopping center a um quilômetro dali.

No caminho passei por algumas concessionárias de carros e fiquei pesquisando preços para comparar com o de veículos brasileiros.

Veículos muito melhores e muito mais baratos!

Veículos muito melhores e muito mais baratos!

Na loja da coreana Ssangyong a caminhoneta Actyon era vendida, com impostos, por R$67 mil enquanto no Brasil estava R$105 mil, portanto, 57% mais caro. Esta diferença em relação ao preço de venda no Brasil era semelhante nas lojas da japonesa Subaru, da francesa Peugeot  e da alemã Volkswagen.

Recentemente, o governo australiano viu suas principais montadoras, FordGM e Toyota, pelo alto custo de produção,  encerrarem suas operações. Praticamente, todos os carros passarão ser importados para atender o mercado da Oceania.  Mas, mesmo assim, são e serão vendidos por preços bem menores que no Brasil.

No supermercado comprei algumas frutas, cereais, suco, iogurte e água. A compra ficou um pouco pesada e ainda tive que carregar até o YMCA. Fiz um lanche leve com o que havia comprado e fui dormir cedo, antes das 9h00, pois teria que levantar cedo para pegar a excursão para o vilarejo de Akaroa.

Lição aprendida #23
Com visão sistêmica, de longo prazo, conhecimento das características da cadeia automobilística e partindo do princípio que "A Economia deve servir a Sociedade e não o contrário", o governo australiano não impediu as montadoras de deixarem o país. Sabia que o impacto na balança comercial não  seria grande, pois a maior parte dos componentes utilizados para montagem dos veículos já era importada e também sabia que o número de empregos perdidos pela desativação da operação industrial não seria significativo. E prevê que a importação de veículos mais modernos, mais seguros, menos poluentes e mais baratos, além dos benefícios diretos para o meio ambiente e para a sociedade, irá gerar mais empregos do que os eliminados com o fechamento das montadoras.

Contrapartida
Na cadeia automobilística, para cada posto de trabalho em atividades industriais existem três ou mais postos nas atividades de serviços de distribuição de veículos, peças e componentes, documentação, comercialização, financiamento, seguros, customização, manutenção, limpeza, licenciamento, abastecimento, estacionamento, pedágios, controle e administração do trânsito, multas, pedágios entre outras.

Ganhos de produtividade são importantes para que os veículos sejam produzidos em tempo cada vez menor ou com menos material, tornando-os cada vez mais baratos e, portanto, acessíveis para uma parcela cada vez maior da sociedade. Aumentar a produtividade beneficia a Economia e também, a Sociedade. Mas, ganhos de produtividade, ou "fazer mais carros com menos pessoas", podem extinguir postos de trabalhoVejam os números a seguir:

  • Em 1965, a Volkswagen brasileira fez 100 mil carros com 50 mil funcionários, ou seja, cada funcionário fazia 2 carros por ano.
  • Em 2010, a Volkswagen brasileira fez 700 mil carros com 20 mil funcionários, ou seja, cada funcionário fez 35 carros por ano.
  • Mas, em 1999, na Nissan inglesa cada funcionário já fazia 49 carros por ano.
  • E, em 2011, na Nissan inglesa cada funcionário fez 88 carros por ano!

Com a produtividade da Nissan inglesa, toda a produção da indústria automobilística brasileira seria feita com pouco mais de 30 mil funcionários, ou cerca de 100 mil a menos do que emprega atualmente. Empregaria menos do que o McDonald's.

Mas, Miguel, 100 mil pessoas ficariam sem emprego!
Não é verdade! Com veículos melhores e mais baratos as vendas aumentariam gerando, nas atividades de serviços citadas acima, três ou mais empregos para cada posto de trabalho eliminado nas atividades industriais.
E um número cada vez maior de brasileiros teria condição de adquirir um carro novo ou de trocar o seu carro usado por um mais moderno, que poluiria menos e seria mais seguro.

Por " desconhecer" as características da cadeia automotiva, em 2012, o governo brasileiro, cedendo à pressão das montadoras, aumentou o Imposto sobre o Produto Industrializado (IPI) dos carros asiáticos que estariam roubando mercado dos veículos produzidos no Brasil e "ameaçando o emprego" de operários brasileiros. Com essa medida os carros asiáticos ficaram 30% mais caros, perderam a competitividade e as vendas caíram.
E sabem quais foram as consequências dessa medida protecionista?
Milhares de postos de trabalho desapareceram na rede de distribuição e nas concessionárias de marcas asiáticas enquanto as montadoras continuaram a demitir! Quantas concessionárias fechando vocês viram? Lembram-se?
Foi um tiro-no-pé do governo e da sociedade que, além dos empregos, perdeu carros mais modernos, mais baratos e seguros - afinal foi apenas pela concorrência dos asiáticos que o governo se viu obrigado a exigir que todos os veículos passassem a ter equipamentos de segurança o airbags e o sistema ABS.
Sem concorrência continuaremos a ter que comprar os carros mais caros do mundo!

Morrem anualmente no trânsito brasileiro mais de 50 mil pessoas. Quantas mortes poderiam ser evitadas se tivéssemos veículos equipados com os modernos sistemas de segurança que os importados trazem?
Quantos empregos vale uma vida?
E a venda de um veículo, importado ou não, sempre irá gerar postos de trabalho.
Quando a cabeça não pensa muitas vidas se perdem!

Até a próxima!

1 Comentário

  1. Vai demorar bastante ainda para a cabeça dos governantes e dos brasileiros chegar à conclusão de que, para nosso próprio bem, devemos abrir mão de certos conceitos da valorização somente em termos monetários e não do BENEFÍCIO que poderíamos obter. Rezemos e esperemos…..

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>