Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Melbourne, tarde cheia.

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Melbourne, tarde cheia.

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Melbourne, AU
Quarta-feira, 19/03 /2014

Continuando meu passeio fui à National Gallery of Victoria. Fundada em 1861, na época da corrida do ouro, é o museu mais antigo da Austrália. Uma excepcional galeria de arte e museu com mais de 60 mil obras. Demonstrando a importância dada às artes, em 1867, associada ao museu, foi criada a National Gallery of Victoria Art School.

National Gallery of Victoria

National Gallery of Victoria

Muito ampla, bonita e organizada, com uma arquitetura moderna e empolgante (ver acima) a National Gallery of Victoria realiza exposições de artistas nacionais e internacionais de alto nível. Excursões de estudantes de várias idades visitam diariamente a galeria. Com um acervo muito grande, a visita foi uma agradável imersão em arte apreciando obras de todos os tempos e lugares do mundo. Veja uma pequena amostra a seguir:

National Gallery of Victoria - Muitas coleções do mundo todo

National Gallery of Victoria - Muitas coleções do mundo todo

Ao sair fui entrevistado por uma funcionária da galeria que gostaria de saber como havia conhecido a galeria, os motivos de minha ida à galeria, do que havia gostado mais etc. Foi uma conversa interessante, pois também a "entrevistei". Ela contou que cultura faz parte da vida da criança australiana desde a sua mais tenra idade, que existe uma ligação estreita entre as escolas e a galeria e que foi comprovado que visitas a museus e galerias estimulam os alunos em suas atividades estudantis. É impressionante a quantidade de excelentes museus em Melbourne. E todos valem uma visita!

Mas, o Immigration Museum era um dos que mais desejava visitar.
Saí da National Gallery, atravessei a ponte, e caminhei pela Flinders em direção a ele.

Museu da Imigração em Melbourne - Uma verdadeira lição de como construir a identidade nacional

Museu da Imigração em Melbourne - Uma verdadeira lição de como construir a identidade nacional

Entrando no Immigration Museum fui conversar com uma das recepcionistas para saber qual seria melhor roteiro. Expliquei que  pretendia descobrir como havia sido costurada a enorme colcha de retalhos que conseguiu unir imigrantes de tantas raças diferentes, as inúmeras tribos aborígenes, atender aos interesses da Corôa britânica e criou um país tão bom para se viver. Suas informações foram preciosas.

Iniciando a visita descobri que. a partir de 1850, com a confirmação da descoberta de ouro em solo australiano (e neozelandês), teve início uma corrida que trouxe um grande número de imigrantes vindos de diferentes países. Os dois países, Austrália e Nova Zelândia, aproveitaram esta oferta para selecionar quais pessoas seriam aceitas no país. Os critérios variaram de acordo com os interesses e necessidades do país podendo ser idade, sexo ou formação profissional. Mas, este fluxo migratório exigiu a definição de regras para não colocar em risco a identidade nacional única (Veja quadro abaixo e clique se quiser ampliar. Isso vale para todas as figuras em todos os blogs).

As políticas de imigração australianas

As políticas de imigração australianas

Outra constatação do departamento de Imigração era que "muitos que desejavam imigrar eram pobres vindos de vários países que achavam que as condições de vida eram iguais em todos os países do mundo: fome, sede, miséria etc mas, mesmo assim, queriam tentar a sorte na Austrália". Foi necessário realizar um trabalho consistente para elevar a expectativa dos recém chegados.
Ouvindo gravações e vendo filmes com história de imigrantes de várias nacionalidades, descobri que irlandeses e chineses foram os maiores grupos entre os emigrantes.

O que se percebe é um conjunto de ações perfeitamente orquestradas para a construção de uma identidade nacional única, semelhante ao que já havia notado na Nova Zelândia. Poderia colocar inúmeras fotos que tirei neste museu demonstrando isso, mas achei melhor colocar apenas algumas para despertar a curiosidade.

Os critérios para melhorar a qualidade de vida da Austrália foram evoluindo em sua história

Os critérios para melhorar a qualidade de vida da Austrália foram evoluindo no tempo

Várias salas estavam com grupos de crianças de 7 a 12 anos, acompanhadas por guias e professores. Elas ouviam atentamente suas explicações e faziam anotações para a escola em seus cadernos.

Em diferentes locais do museu percebi um trabalho intensivo para evitar que a discriminação racial ou religiosa ou de qualquer ordem ameaçasse a construção da identidade nacional única. Filmes em telões apresentavam campanhas nacionais ensinando como agir caso percebesse uma  situação de discriminação (um dos filmes mostrava um homem branco provocando negro em um ônibus).
A palavra de ordem em todo o museu é identidade nacional única. A mensagem ecoava permanentemente  "Veja como "globalizamos" nossa população sem perder nossa identidade nacional. Pelo contrário, a fortalecemos".

Muitos oriundos de guerras e desastres naturais em seus países formaram as famílias australianas.

Muitos oriundos de guerras e desastres naturais em seus países formaram as famílias australianas.

Em uma das salas estava sendo apresentada uma coleção de roupas de moda islâmica e, em todos os cartazes, como podem ver na foto a seguir, as estilistas se apresentam como Aussie muslins, ou Australian muslins, querendo dizer: somos em primeiro lugar australianas e, em segundo lugar, islâmicas. Esta mensagem é absolutamente clara no museu: Somos TODOS , em primeiro lugar, AUSTRALIANOS, e depois vem nossa religião, raça, descendência, preferência sexual, política, esportiva, categoria social ou profissional etc. Que inveja !!!!!!!!

Todos os que imigraram para a Austrália são, em primeiro lugar, australianos!

Todos os que imigraram para a Austrália são, em primeiro lugar, australianos!

Curiosamente, as pessoas em Melbourne se surpreendem ao saber que a cidade é a primeira no ranking de melhores cidades para se viver no mundo. Como os neozelandeses, eles também acham que ainda há muita coisa para melhorar ... e querem mais!
Que diferença! Toda a propaganda oficial no Brasil é para acharmos que somos o máximo e que se melhorar piora.

Deixei o Museu de Imigração com um gosto de quero mais. Mas, era meu último dia em Melbourne, e fui caminhando para meu próximo destino. No caminho dei uma parada na praça ao lado da RMIT University para ouvir música (rock clássico) de alto nível tocada por um grupo de jovens  (ver foto abaixo) enquanto o povo assistia sentado em almofadas no jardim. Uma brisa inebriante de cultura, arte, entretenimento em ambiente alegre e seguro. Como isso é bom! Não resisti e fiquei, por um tempo, apreciando tudo isso.

Ouvindo música de alto nível refastelados em pufes nos jardins da Universidade

Ouvindo música de alto nível refastelados em puffs nos jardins da Universidade

Já havia caminhado muito neste dia e ainda teria que caminhar mais um pouco, mas, com meu novíssimo super soft tênis Adidas Springblade estava tranquilo.

Lição aprendida #12
O binômio Educação (escolas) e Cultura (museus e arte) deve estar presente em muitos momentos e em todas as fases da vida do cidadão.

Lição aprendida #13
Importantíssima!
A construção de uma identidade nacional única é imprescindível para que não sejam desperdiçados esforços, recursos e energia  em rusgas internas que retardem ou impeçam a construção do país que a sociedade deseja e merece.

Contraponto
A cada dia em minha viagem ficava mais claro para mim que, no Brasil, faz-se o oposto em, praticamente, tudo!
E, obviamente, obtemos resultados opostos. Do incentivo à Cultura e priorização da Educação ao estímulo para melhorar continuamente e não se acomodar, somos a antítese do modelo australiano.

Mas, a diferença mais gritante está na verdadeira ojeriza  em criar uma identidade nacional única.
Assiste-se passivamente a um processo oposto, literalmente maquiavélico, de dividir para governar que está levando o brasileiro a, em primeiro lugar, defender seus direitos pessoais, em detrimento dos interesses da nação. O individual prevalecendo sobre o coletivo.
Antes de ser brasileiro cada um é , em primeiro lugar, negro, indígena, gay, pobre, proletário, inculto, socialista, ou qualquer outro adjetivo e precisa defender seus interesses antes que alguém branco, eurodescendente, hétero, rico, burguês, culto, capitalista usurpe seus direitos.
Chegamos ao fundo-do-poço ao não sermos unidos nem quando a Copa do Mundo é em nosso próprio país. Lembrando que, "só no Brasil, fundo-do-poço tem subsolos".

Toda a energia necessária para construirmos um país melhor está sendo exaurida em disputas internas fomentadas por lideranças inescrupulosas que se locupletam enquanto a sociedade se distrai discutindo suas diferenças e desprezando suas semelhanças. Afinal, somos todos, em primeiro lugar, seres humanos BRASILEIROS!

Até a próxima postagem no dia 23/06/2014

3 Comments

  1. O Brasil sempre foi reconhecido como o país da miscigenação, multi racial, todos com orgulho de suas origens. Essa era nossa identidade. Essa antítese, destacada por você, é recente. Tudo engendrado pelos líderes do partido governista. Partido nascido entre trabalhadores, que acreditavam estar lutando pela igualdade garantida pelos direitos democráticos. É muito triste ver que tudo se perdeu, em razão de os líderes terem tornado a luta individualista, tendo como objetivo a busca ferrenha do poder pelo poder, infinitamente. Muito parecido com filmes que já vimos no passado e ninguém gostou.

    • Sim, Ivonete, vivemos uma nova situação criada por um governo inescrupuloso que mente descaradamente dividindo e incitando a sociedade.

  2. Graças a você, cada dia aprendo mais sobre o país dos meus pequenos “Aussis” e fico mais feliz por terem voltado. Bela aula de história sociologia e política…
    Contraponto perfeito !!! é a mais pura realidade….

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