Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Melbourne, segundo dia

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Melbourne, segundo dia

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Melbourne, AU
Quarta-feira, 19/03 /2014

Levantei cedo, tomei a minha compulsória ducha e, ao começar a me vestir, notei que de tão entretido com a cidade havia me esquecido de  comprar o tênis. O único sapato que havia trazido estava "cansado" e já parecia iniciar uma pequena bolha em um dos dedos.

Saí pensando em pegar o bonde que faz um tour de 90 minutos por AUD 5, podendo descer nos pontos e pegar outro depois, mas desisti da ideia. Preferi ir ao Museu da Imigração que ficava na  Flinders Street, mas eu ainda não sabia o número.

Desci pela Swanston, apreciando a descontraída molecada se dirigindo para as universidades e escolas da região, e tomei café (ovos fritos, bacon, pão com manteiga, geleia e café ... bem saudável!) na viela grafitada, aquela que fica no antigo submundo da cidade e hoje é uma atração turística. Escolhi o Café Aix Creperie Salon, com serviço e comida excelentes e bom preço, na 24 Centre place.

Cafe AIX Creperie Salon e quadro retratando os "bons tempos"

Café Aix Creperie Salon atual e no quadro retratando os "bons tempos"

O pão feito na casa era mais que delicioso. Servido quente, bastava passar a manteiga que derretia imediatamente. Nada como um cafézinho preto e um pão com manteiga! Com um pouco de geleia de frutas vermelhas , hmmm... Sensacional!  O dono, que discretamente comandava as ações, e sua pequena equipe eram todos muito simpáticos, sorridentes, prestativos e eficientes. Quando lembrei do padrão do serviço nos bares e restaurantes brasileiros ...deu uma inveja!

Sem Internet (meu cartão SIM só funcionava na Nova Zelândia e o Café Aix não tinha wi-fi) só consegui descobrir o endereço do Museu da Imigração perguntando no museu ACMI Australian Centre for the  Moving Image que fica na Fed Square e mostra a evolução da imagem desde os primeiros filmes mudos até o que se pode fazer, atualmente, com smartphones.

Australian Centre of Moving Images - uma agradável surpresa!

Australian Centre for the Moving Image - uma agradável surpresa!

O ACMI é muito interessante. Aborda tudo o que se refere à evolução da tecnologia para captura de imagens. Muito bem montado (primeira foto no quadro abaixo) mostra desde as primeiras fotos, de aborígenes em seu habitat (segunda foto no quadro abaixo), ao uso dos modernos smartphones para filmar, até o uso de tecnologia digital como ferramenta importante no processo educacional (última foto abaixo à direita).
Também fiquei sabendo que  maioria dos museus é gratuita e quando é pago, como o ACMI, crianças e pessoas acima de 60 anos têm uma concession e não pagam nada ou pagam um valor reduzido.

ACMI - visão geral, aborígenes, Como fazer 3D, estúdio

ACMI - visão geral, aborígenes, carro utilizado no filme Mad Max, Sequencia para fazer 3D, estúdio

Estava absorto tirando foto de tudo quando fui abordado por uma professora que veio me avisar, com uma expressão séria, que não se pode tirar foto de crianças sem autorização. Nesse momento eu estava tirando fotos de adolescentes fazendo sketches (pequenas interpretações sendo filmadas como na última foto à direita acima). Contei que também era professor e estava registrando o uso de tecnologia em escolas secundárias australianas. Ela explicou que o uso de tecnologia era apenas uma das ferramentas utilizadas e que foram necessárias muitas outras coisas para chegar aos bons resultados apresentados pelo sistema educacional australiano. Foi uma longa e boa conversa. Uma professora realmente de alto nível!

 

Saint Patrick's Cathedral - Arquidiocese católica em Melbourne, bem em frente à Fed Square

Saint Patrick's Cathedral - Arquidiocese católica em Melbourne, bem em frente à Fed Square

Antes de sair do museu para visitar a imponente Catedral de São Patrício com sua torre de 105 metros de altura, bati um bom papo com um volunteer do ACMI que contou coisas interessantíssimas sobre a Austrália.
Por exemplo, explicou que não existe seguro para acidentes na Austrália. Todo acidente, inclusive os de carro, o governo paga tudo ou subsidia, pois já está incluído nos impostos pagos. Obviamente, isso só vale para cidadãos australianos. Mesmo assim, que maravilha!

Confirmou que as escolas primary education (7 a 11 anos) e secondary education (12 a 17 anos) são muito boas e gratuitas, assim como muitos cursos de formação profissional ou VET (Vocational Education and Training) na tertiary education  (18 anos  em diante). Explicou que as escolas buscam despertar o interesse dos alunos por aprender. Orgulhoso, deu como exemplo seus dois filhos que não nunca quiseram tirar nota para passar, sempre queriam entender, aprender.  Que exemplo!

Também na  terciary education a universidade (higher education ) é paga  e custavam  AUD 6mil e  AUD7mil por ano para cada um de seus dois  filhos universitários. Achei, como ele, que o valor era bem razoável para cursos sempre classificados entre os melhores do mundo. (Link para saber mais sobre o eficiente sistema de educação australiano)

Explicou que para exercer, por exemplo, as profissões de pedreiro, encanador ou jardineiro é obrigatório fazer um curso específico de quatro anos nos institutos de Technical And Further Education (TAFE) . Sem concluir esse curso não se pode exercer essas e outras  profissões. Mas, com o curso, um pedreiro pode ganhar mais de AUD1.500 por semana. Lembrei-me de ter visto várias peruas muito bem cuidadas transitando pelas  ruas de Melbourne equipadas para oferecer a domicilio de serviços de  pedreiro, eletricista e encanador.
Perguntei quanto ganharia um professor. Ele respondeu que, um professor do ensino primário ou secundário, que cumpra 40 horas semanais ganharia, no mínimo, AUD1.000 por semana. Ou AUD48.000 por ano com 28 dias de férias (Mais de R$107.000 por ano, mesmo sem trabalhar quatro semanas por ano). Nada mal!

Ao final da conversa, perguntei sobre um bom lugar para jantar, já que seria  minha última noite em Melbourne, e ele indicou um lugar na Hardware Lane explicando que era uma rua estreita com vários pequenos restaurantes e mesas na rua.

Ao sair co ACMI, percebi que meu pé estava começando a dar sinais de insatisfação e procurei uma loja de calçados. Depois de pesquisar em algumas lojas, voltei para a loja da Foot Locker na Swanston e experimentei mais alguns tênis. Gostei do novo modelo da Adidas, o Springblade, que, com suas lâminas flexíveis (ver foto abaixo) era incrivelmente macio e confortável. Havia visto este modelo no Brasil, antes de viajar, mas como o preço variava entre R$1.000 e R$1.200, deixei para comprar no exterior. Sábia decisão! Na Foot Locker estava por AUD219, aproximadamente USD208, ou seja, R$490. Comprei na hora e já saí usando.

Adidas Sprigblade - para andar nas nuvens.

Adidas Springblade - para andar nas nuvens .... (não repare na meia marrom!)

Será que. alguma vez, o governo brasileiro calculou quanto o  sistema de saúde gasta só para cuidar de problemas de coluna ou de articulação que poderiam ser prevenidos ou minimizados com o uso de tênis como esse?
(Quanta ingenuidade a minha: Esqueci que eles não gastam dinheiro com o sistema de saúde! Aparelham o SUS com "baratos médicos cubanos" e ainda não pagam seus direitos trabalhistas!! Essa bomba vai sobrar para alguém. Quem avisa amigo é!)

Conversei longamente com a jovem e simpática vendedora que me atendeu na Foot locker. Neozelandesa, 21 anos, ela veio para a Austrália há dois anos. Contou que, tanto na Austrália como na Nova Zelândia, os salários são pagos por semana. Por que? Porque como um ano em 52 semanas, em certos meses se trabalha mais (e se gasta mais) e em outros menos. Para evitar injustiças, paga-se por semana e fica tudo resolvido! Simples e justo.

Ela contou que, como vendedora  ainda não estava trabalhando as 40 horas semanais permitidas, mas já ganhava AUD500 por semana, enquanto o namorado (que ela chamava de partner) era engenheiro e fazia AUD 2.500 por semana trabalhando em semanas alternadas nas minas de bauxita. Portanto, ele fazia aproximadamente  AVD5.000/mês e, juntos, pagavam aluguel de AUD 1.200, alimentação, despesas pessoais e ainda tinham uma boa sobra para poupar e investir em cursos ou viagens.

Perguntei a ela por que havia saído da Nova Zelândia e ela disse que o salário era melhor na Austrália. Na Nova Zelândia pagavam pela hora trabalhada NZD13,75. A partir de Maio passaria para NZD14,25. Mas, na Austrália já estava NZD16,78, com o dólar australiano valendo 1% mais que o neozelandês. A partir de primeiro de Julho próximo, trabalhando as 40 horas semanais permitidas ela fará AUD622,20. Isso significa quase AUD30.000 por ano (R$67.000),  mesmo ficando quatro semanas em férias, portanto, sem receber!  Para brasileiro entender: o salário mensal médio de uma vendedora inicia em  R$6.000!
Se quiser fazer suas próprias contas entre neste conversor de moedas.

Uma tarde com muitas lições!

Lição aprendida #9
Sendo responsabilidade do governo zelar pela segurança da população, nada mais natural do que o ônus do seguro ser do governo. Lógico  e simples, não?

Lição aprendida #10
Garantir Educação básica de qualidade e gratuita para todos é função do governo. Imprescindível para assegurar uma boa distribuição de renda pela sociedade, já que a renda de cada cidadão será diretamente proporcional à sua escolaridade .

Lição aprendida #11
O conjunto de atividades econômicas de um país deve distribuir adequada e dignamente a renda pela população através do trabalho de cada cidadão. Isto dignifica o trabalho e valoriza o cidadão. 

Contraponto
O mercado securitário tem participação significativa no PIB de serviços brasileiro. Por que? Muito simples: em função do alto nível de insegurança reinante em todo o país, a probabilidade de sofrer um roubo ou acidente está tão alta que é preciso fazer seguro para tudo. O risco é tão elevado que para certos tipos de carga as seguradoras aceitam fazer seguro! Consequentemente, temos os seguros mais caros do mundo. Altos preços e grande demanda tornam o mercado securitário brasileiro um dos maiores do mundo. Querem um exemplo?
Trazer um contêiner com certas mercadorias da China até o porto de Santos, um percurso de 12 mil quilômetros, custa 1.500 dólares. Para levar este mesmo contêiner de Santos até São Paulo, um percurso de 60 quilômetros, chega a custar outros 1.500 dólares. Afinal, serão necessários escolta, sistemas de rastreamento, seguro, equipes altamente treinadas, rotas estudadas, sensoriamento de portas entre outras coisinhas.
O que impressiona é nossos governantes não se sentirem responsáveis por isso tudo e apenas se preocuparem em recolher os tributos das atividades securitárias.

Se as atividades econômicas não distribuem adequada e dignamente a renda pela população, faz-se necessário aplicar programas assistencialistas que, no curto prazo, reduzem as tensões sociais, mas no médio e longo prazo,  ao dividir a sociedade em dois grupos - os que sustentam e os que são sustentados - provocam o recrudescimento das tensões sociais, com consequências previsíveis como o aumento da violência e da criminalidade e podem se tornar ferramentas de manipulação nas mãos de governantes sem escrúpulos.

Programas assistencialistas - se não forem muito bem planejados, com definição de contrapartidas, sistema de monitoramento, início e fim - são como rodízio de carros para reduzir o congestionamento no tráfego em grandes centros urbanos: surtem efeito apenas no começo. Se estendidos ou perpetuados, carros-reserva em pior estado de conservação serão adquiridos pela população e o caos urbano retornará.

Espero que estejam gostando. Até a próxima no dia 19/06/2014

 

 

2 Comments

  1. É possível, um mundo mais digno é possível!

  2. Muito bem colocado.

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