Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Melbourne, primeiro dia

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Melbourne, primeiro dia

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Melbourne, AU
Terça-feira, 18/03/ 2014 

A capital da Austrália é Camberra. Mas, Sidney  é a maior cidade australiana com 4,5 milhões de habitantes e Melbourne, com 4,1 milhões de habitantes, é a segunda maior. Se estivesse no Brasil, seria a terceira maior cidade, menor apenas que São Paulo e Rio de Janeiro e com 1,2 milhão de habitantes a mais do que a terceira, Salvador. Muitos pensam que os dois países,  Austrália, por ter apenas 23,6 milhões de habitantes, ou Nova Zelândia, com 4,4 milhões, não permitiriam comparações válidas com o Brasil. Mas, a pouca área realmente útil nos dois países, seja por deserto ou grandes montanhas, deu origem a grandes cidades, similares em tamanho às brasileiras. Melbourne é uma delas e, não custa lembrar, eleita a melhor cidade para se viver no mundo no ranking de 2013! Como os desafios enfrentados na gestão pública desta cidade devem ter sido, em muitos casos, semelhantes aos de cidades brasileiras, minha curiosidade para saber o que, e como, fizeram para se tornar a melhor do mundo era enorme!

Melbourne é mesmo uma cidade anfitriã e me recebeu oferecendo um dia espetacularmente  lindo! Vejam a cor do céu na foto no topo da página (tirada com meu smartphone Note II no modo panorâmico). A localização do hotel era muito boa. À esquerda à uma quadra ficava o Queen Victoria Market, tradicional mercado da cidade para alimentos frescos, um monumento histórico, uma atração turística e uma verdadeira instituição de Melbourne. E, bastava virar à direita na Victoria Street e já descer caminhando pela Swanston Street para, em 10 minutos, chegar à Flinders Street e à Federation Square, ou Fed Square, centro de eventos e acontecimentos da cidade, inaugurada em 2002 para comemorar (com um ano de atraso) o centenário da criação da Federação australiana.

Não havia tempo a perder! Seriam poucos dias para conhecer a cidade e tentar descobrir seus segredos! Levantei cedo, as 7h00, tomei uma ducha (indispensável para despertar!), separei roupas para lavar no hotel e saí caminhando em direção à Federation Square. Entrando na Swanston Street comecei a cruzar uma multidão de jovens carregando mochilas e material escolar, parte vestindo formais uniformes de escolas primárias ou secundárias e parte informalmente vestidos com uma descontração tipicamente universitária.  No quarteirão seguinte me deparei com um dos prédios da RMIT University, a maior universidade australiana, com mais de 120 anos de existência (foi fundada em 1887) e que, com cursos diversificados, de Engenharia, Medicina e Direito a Mídia digital, Artes e Design, recebe alunos de todo o mundo. Era muito bonito ver: os jovens chegando de bonde, a pé ou de bicicleta, formando um ambiente colorido e descontraído que mesclava juventude e cultura. Melbourne já estava me conquistando!

RMIT Instituto Real de Tecnologia de Melbourne. Reparem a quantidade de biciletas.

Continuei descendo a Swanston e parei para tomar meu café da manhã no McDonalds, já bem próximo da Flinders e da Fed Square. Como havia planejado, assim que terminei meu café,  fui até os fundos da Fed Square (foto abaixo) para o pegar o City tour (AUD 50) que passaria pelos principais pontos turísticos da cidade, só que sem a possibilidade de descer em algum dos pontos e continuar o tour em outro ônibus, como em Auckland.

Federation Square visto da Flinders. Ponto do city tour indicado pela seta no canto inferior esquerdo

Federation Square visto da Flinders. Ponto do city tour indicado pela seta no canto inferior esquerdo

Eu poderia descer e continuar o tour no passeio realizado pelo bonde para turistas (AUD5), mas o circuito percorrido pelo city tour de ônibus passava por mais pontos interessantes. Portanto, se quisesse voltar para algum dos pontos, poderia pegar o bonde mais tarde, ou outro dia. Melbourne é a cidade com a maior malha viária para bondes do mundo. E os bondes são um show a parte. Modernos, limpos, silenciosos, confortáveis, espaçosos e frequentes tornaram-se o meio de transporte mais utilizado na cidade.

Bondes, um show a parte. Modelos e cores diferentes com mensagens alegres.

Bondes, um show a parte. Modelos e cores diferentes com mensagens alegres. Reparem o nivelamento do piso para não prejudicar os pedestres.

Com aproximadamente três horas de duração, o city tour foi uma boa escolha. O motorista, como em Auckland, fazia tudo: dirigia, narrava, vendia pacotes turísticos, contava piadas, orientava, ajudava e o que mais fosse preciso. Tudo sempre com um sorriso no rosto. Para os que não falavam Inglês era possível contratar um tradutor que os acompanharia em todos os momentos do passeio. Durante o tour, chamou minha atenção o interessante contraste de estilos arquitetônicos presente em vários pontos da cidade,  como na foto abaixo.

Prédios antigos e novos lado a lado.

Prédios antigos e novos lado a lado.

Passamos por um dos vários prédios da Universidade de Melbourne, a mais antiga da Austrália. Fundada em 1853, é muito respeitada nas áreas de Artes, Humanas e Biomédicas e tem 40.000 alunos. A melhor classificada entre as universidades australianas, em 2012, ocupava a respeitável 28a. posição no ranking mundial The Times Higher Education 2012-2013 World University Ranking.

Universidade de Melbourne - A mais antiga da Austrália

Universidade de Melbourne - A mais antiga da Austrália

Continuando o tour, para minha grande surpresa, passamos pela "Mercadante Woodfired Pizzeria" na 123 Lygon Street, Carlton. Imediatamente entendi a estratégia brasileira! Como tudo o que se faz de errado em Brasília sempre termina em pizza, e a quantidade de erros tem sido enorme, parte das "pizzas" estaria sendo exportada pelo multi-ministro Mercadante. Os comentários que li sobre a pizzaria não eram muito bons, mas, pelo menos estamos conseguindo escoar as nossas "pizzas" para o exterior. Mais uma brilhante vitória do nosso Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Pizzaria Mercadante - Brasília exportando seu principal produto

Pizzaria Mercadante - Brasília exportando seu principal produto

Casa dos pais o Capitão James Cook, trazida da Inglaterra para o Fitzroy Garden

Casa dos pais do Capitão James Cook, trazida da Inglaterra para o Fitzroy Garden

O ônibus fez uma parada no Fitzroy Garden, uma praça enorme com um lindo jardim, muito bem cuidado, repleto de árvores e flores de tipos variados. A praça abriga, também, a casa dos pais do capitão James Cook, explorador,  navegador cartógrafo inglês que fez o primeiro contacto europeu com a costa leste da Austrália e com o Arquipélago do Havaí. Também foi o primeiro a circunavegar Nova Zelândia.
A casa, originalmente construída na Inglaterra, foi desmontada e transportada para Melbourne, em 1930, tendo sido todos os tijolos numerados ao ser desmontada para que a casa fosse remontada exatamente igual à original.
Os jardins eram maravilhosos e impressionantemente limpos, mesmo estando bem no centro da cidade.

Fitzroy Garden

Fitzroy Garden - Lindo, bem cuidado e limpo

Passava pela pequena casa dos pais do capitão James Cook, quando perguntei ao senhor que recepcionava os visitantes se era muito trabalhoso manter aquela praça enorme tão limpa. Sua resposta foi desconcertante:
"É muito fácil manter esta praça limpa. Se disponibilizamos lixeiras, por que alguém jogaria lixo no chão?"
Fiquei com aquela resposta martelando a minha cabeça por um bom tempo. Pensava "É porque ele não conhece brasileiro!" e muitas outras frases que poderia ter dito para ele. Mas, isso não levaria a nada. Queria descobrir porque Melbourne é limpa, não achar desculpas para a grande maioria das cidades brasileira ser suja.
Então, de repente, percebi que ele havia, naturalmente, suprimido apenas um adjetivo de sua frase. Sua frase completa seria:
“Se disponibilizamos lixeiras, por que alguém EDUCADO jogaria lixo no chão?". 
Aí tudo se encaixou. Para aquele senhor todo cidadão é, obviamente, educado. Para ele seria redundante usar esse adjetivo naquela frase.

Lição aprendida #7
Educação (de qualidade) para todos deve ter prioridade máxima! O 
governo australiano oferece escolas primárias, secundárias e técnicas gratuitas e de qualidade para todos os cidadãos. Cursos terciários (universitários)  são pagos. Sabendo que Educação é pré-requisito para a construção de um país com qualidade de vida, TODO cidadão australiano tem acesso a educação de qualidade.
Irritantemente óbvio, não?  

Contraponto
As universidades mais antigas do mundo são as de Bolonha, na Itália, fundada em 1088 e Oxford, na Inglaterra, fundada em 1096. A Austrália, transformada em colonia penal da Corôa Britânica em 1788, recebeu presidiários até 1848. E sua primeira universidade foi criada em 1853. Na Nova Zelândia, a Universidade de Otago foi fundada em 1869. Era uma questão de prioridade. Mesmo com presidiários degredados (mandados embora de algum lugar) a construção do país deveria começar pela Educação.

O Brasil foi descoberto em 1.500, sendo portanto bem mais antigo que os países da Oceania, e sua primeira universidade, a do Paraná, foi criada em 1912, 60 anos mais tarde que na Oceania. A que se deve essa crônica falta de prioridade em Educação? Em toda a sua história, o Brasil sofreu com governos dicotômicos (que separam em dois lados). Começou com portugueses e brasileiros, passando por brancos e negros, comunistas e capitalistas, esquerda e direita, culminando com as atuais nós e eles, situação e oposição e extrapolando com quotas para esses, quotas, para aqueles.

"Nunca na história desse país" foi tão usada a técnica maquiavélica (no sentido exato da palavra)  de "dividir para governar", que, em outras palavras, significa "fazer a sociedade gastar toda a sua energia lutando entre si, não sobrando tempo e energia para fiscalizar seus governantes". E, para que essas dicotomias (separações) se mantenham, o sistema educacional deve continuar ineficiente ou ser utilizado para fomentar a divisão.
A quem interessaria a perpetuidade dessa situação?

Quando o povo é inculto, vencem os espertos e perpetuam-se as desigualdades!

8 Comments

  1. Muito boa a lição, e a partir dela o que se pode/deve fazer? Adorei as fotos de uma cidade limpa em todos os lugares…tendo lixeira porque as pessoas jogariam lixo no chão? Educação, educação, educação e mais educação.

  2. Muito interessante conhecer que existem lugares muito diferentes do Brasil. Fico pensando e duvidando se haverá um dia este Brasil se tornará civilizado. Gostei muito da tua exposição. Um grande abraço. J.Luis

    • “O burro não aprende, o inteligente aprende com suas próprias experiências (ou erros) e o sábio com as experiências (ou erros) dos outros”. Definitivamente, comprovei que o Brasil está no caminho errado. O futuro do país dependerá de sua opção: ser burro, inteligente ou sábio? Este blog é a minha singela contribuição para mostrar que, sim, há saída. Grande abraço!

  3. Bela viagem, ótimo relato, excelentes lições. O princípio de tudo está na EDUCAÇÃO. É por aí brother…. aguardando o próximo post.

    • Grande Mila! Bem vindo! O que aprendi por lá foram mais do que lições, foram verdadeiros tapas na cara necessários para me fazer ver que existe saída, mas que tudo começa pela Educação com E maiúsculo. Brevemente pretendo visitar SC e vamos conversar mais sobre isso e muito mais. Grande abraço.

  4. Belissima vivência, Miguel. Comprova-se mais uma vez que a educação é a resposta para todas as mazelas em que vivemos. A civilidade, o respeito se tornam naturais quando o ensino é colocado como primordial.

    • Sylvia, as lições aprendidas foram tantas e tão explícitas que passei a chamá-las de ‘tapas na cara”. Mas, tudo começa pela Educação. Em, praticamente, todos os blogs já publicados destaco as lições aprendidas e ainda virão muitas outras “lições “. Acompanhe e verá. Abs

    • A estreita relação entre Educação e Cultura esteve presente em toda a viagem. São duas coisas distintas, complementares e necessárias.

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