Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: De Auckland para Melbourne

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: De Auckland para Melbourne

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Auckland, NZ e Melbourne, AU
Segunda feira, 17/03/2014

Antes de sair da NZega a Rose me alertou que esta segunda-feira era Saint Patrick's Day, dia que alguns, principalmente os mais jovens, bebem até cair. Comentou que o alcoolismo era um problema social e que o governo tem investido seriamente em sua prevenção. Ela me aconselhou a não ficar nas ruas até muito tarde, pois poderia haver algazarra. Como, ao final do dia, eu viajaria para Melbourne, eu não teria que me preocupar com isso.

Viajei para lá para explorar os dois países, mas ainda no Brasil, já havia marcado um compromisso especial para este dia. Pesquisei muito para encontrar esse lugar: 590 Remuera Road, a casa onde havia nascido Bruce McLaren, o fundador da equipe McLaren, hoje reconhecido nacionalmente como aquele que colocou a Nova Zelândia no mapa mundial. Queria conhecer mais sobre suas origens, sua história. Afinal ele havia sido um grande ídolo em minha juventude. Suas conquistas - na Fórmula 1, na Indy e, principalmente, na Can-Am, uma competição de carros esportes (foto abaixo), na época mais rápidos que a Formula 1 - encantaram o mundo, eternizaram seu nome e colocaram a Nova Zelândia, definitivamente, no mapa mundial. Desde o início a marca McLaren esteve sempre associada à simpática figura do kiwi, pequeno pássaro neozelandês, tão típico do país que todo cidadão neozelandês é chamado de "kiwi' (veja no centro do logo mostrado abaixo).

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A Rose, muito atenciosa, havia indicado o melhor modo de ir até lá.  Seguindo sua orientação, desci até o ponto de ônibus na Flinders Street (os pontos têm painéis indicando os horários dos ônibus) e peguei o ônibus indicado por ela. O motorista, que também era cobrador, foi extremamente gentil  dando toda a orientação para que eu chegasse ao endereço: 590 Remuera Street. Só faltou descer do ônibus e me levar até a porta.

Frase que melhor define quem foi Bruce McLaren

A frase acima explica  de onde vem minha admiração por Bruce McLaren.  Teve uma carreira vitoriosa em várias categorias do automobilismo mundial como piloto, engenheiro e construtor, mesmo tendo que usar muletas até os 12 anos e morrido, muito jovem, aos 32 anos de idade. Hoje, a Nova Zelândia reconhece seu importante papel na divulgação do nome do país chamando-o de "The Kiwi Legend".

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590 Remuera Road

Cheguei apenas para conhecer a casa onde Bruce havia nascido, mas a porta estreita à esquerda levava a um verdadeiro tesouro escondido! A visita foi absolutamente fantástica. Uma imersão em um passado glorioso. Logo na entrada após a pequena porta, o primeiro poster era do Senna com a frase “He was the best driver who ever lived”. Sorri concordando. Subi a escada muito lentamente, pois estava forrada de posteres, um mais interessante que o outro. Fui olhando, a princípio superficialmente , os quartos repletos de coisas. Foi quando apareceu o David Rhodes (está ao lado da porta na foto), o simpático e competente administrador da Bruce McLaren Trust criada pela irmã caçula de Bruce, Jan McLaren, para resgatar sua história e perpetuá-la.

A conversa começou com certa formalidade, mas assim que contei que havia disputado campeonatos de Kart (foto abaixo) competindo com o Ayrton Senna (disputando mano-a-mano algumas provas. Bons tempos!) ele sentiu-se a vontade e começou a mostrar em detalhes o que havia sido cada aposento, o quarto do Bruce, o que representava cada objeto exposto. Contou as travessuras que Bruce fazia mesmo preso em uma cama ortopédica  e muitos fatos curiosos que eu desconhecia.

Campeonato Paulista de Kart - 1976

Campeonato Paulista de Kart - 1976

Explicou como havia reunido tantas informações e como as organizava a partir de seu escritório. A quantidade de informações era impressionante! Orgulhoso, contou que este imóvel, comprado pelo pai de Bruce em 1936 para montar sua oficina, a McLaren's Service Station, deverá ser transformado em museu, brevemente.

São várias salas repletas de informações, troféus, miniaturas e documentos originais.

São várias salas repletas de informações, troféus, miniaturas e documentos originais.

Eu poderia ficar dias, semanas, bisbilhotando aquelas salas. A cada foto ou troféu que via ficávamos relembrando, eu e o David, histórias daquela época e eu não percebia o tempo passar. Conversávamos com velhos amigos. Falamos muito sobre os três grandes pilotos neozelandeses: Bruce McLaren, Denny Hulme e Chris Amon, este último considerado o piloto mais azarado na história da fórmula 1, pois seu carro sempre apresentava pequenos problemas. Em toda sua carreira ganhou apenas o Grande Prêmio da Argentina, quando este ainda não contava pontos para o campeonato mundial. Amon fez pole positions, voltas mais rápidas em corrida, liderou vários GPs, foi onze vezes ao pódio, mas nunca conseguiu vencer um grande prêmio oficial. Recentemente Amon, já com 71 anos, respondendo sobre sua fama de piloto azarado disse rindo "Considerando que a maioria dos pilotos contemporâneos considerados com sorte já morreram, eu acho que não sou tão azarado assim".

Jack Brabham, Bruce e seu pai em foto publicitária tirada na oficina da Remuera Street

Jack Brabham, Bruce e seu pai em foto publicitária na McLaren's Service Station, Remuera Street

Vi muitas fotos de Bruce com Jack Brabham que teve participação importante na carreira de Bruce, como na foto acima quando o pai de Bruce comprou o Cooper T45 (a direita) para o filho disputar a temporada de 1959 na Europa. Neste ano, Bruce venceu o Grande Prêmio dos EUA, o único em toda a história disputado em Sebring na Florida, se tornando, aos 22 anos de idade, o mais jovem piloto a vencer um GP na fórmula 1. Em 1960, Jack foi campeão e Bruce foi vice, ambos dirigindo para a equipe Cooper.

Jack Brabham, que faleceu no dia 19 de Maio deste ano, aos 88 anos, foi um dos grandes nomes da Fórmula 1. Nasceu na Austrália, começou sua carreira vencendo o campeonato australiano de kart e encerrou com a conquista do  tri-campeão mundial de Fórmula 1 ao vencer em 1959, 1960 e 1966. Um dos grandes ídolos de Bruce, Jack também foi construtor, tendo, com seus carros, vencido os  campeonatos mundiais em 1966, com ele mesmo, e no ano seguinte com Denny Hulme.
Como Emerson Fittipaldi fez, alguns anos depois, para muitos pilotos brasileiros, Jack Brabham também abriu as portas da Europa para excelentes pilotos australianos como Alan Jones, campeão em 1980, Mark Webber e Daniel Ricciardo, uma grata revelação neste campeonato mundial de 2014.

Biografia de Bruce McLaren em fotos (Bruce's Scrapbook)

Capa da Biografia de Bruce McLaren em fotos, mostrando Bruce, literalmente, voando com sua McLaren F1 na reta do circuito de Nurburgring, Alemanha.

Comprei o mais recente livro publicado sobre Bruce McLaren (foto acima), uma coletânea de fotos contando toda sua vida, que, infelizmente, não pode ser assinado pela Jan McLaren, irmã mais nova do Bruce,  porque ela estava viajando. A conversa estava boa demais! Quando vi que horas eram fiquei preocupado, pois minha mochila estava no hotel. Temendo perder o voo para Melbourne, peguei um táxi (NZD 26) até o Jucy hotel, peguei minha mochila no "locker" e corri para a Queen Street para pegar o shuttle Airport Express que chegou pontualmente. Desci no aeroporto as 14h30, portanto com a antecedência pedida para vôos internacionais, já que o meu voo sairia as 16h45. Mas, não soube porque, o voo atrasou e saiu as 18h00. Foi o tempo que precisava para fazer um bom lanche. Ao embarcar, na inspeção da bagagem, entenda-se mochila, fui obrigado a deixar meu gel para cabelo por conter mais de 100ml. Tentei convencer a fiscal mostrando que o tubo já estava no fim e que precisaria dele. Ela olhou bem para mim, sorriu e disse "Você não precisa disso". Retribui o sorriso e agradeci dizendo "You made my day!". Uma massagem no ego é sempre bem vinda!

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Boeing 787 com janelas escurecendo ao toque do passageiro.

O avião da companhia aérea australiana  Jetstar, um novíssimo Boeing 787, era fantástico, com suas janelas escurecendo ao toque do passageiro (foto acima) e com as habituais e cansativas  instruções dadas pela tripulação antes de decolar sendo apresentadas em vídeo por lindas garotas de biquíni, todas  de uma edição especial da Sports Illustrated: diferente e muito bem feito, o vídeo era criativo, bonito, divertido, prendia a atenção e cumpria seu papel prendendo a atenção de homens e mulheres (sim, porque também apareciam rapazes!). Mas, em vôos da Jetstar, uma empresa low-fare (tarifa baixa), tudo é cobrado, até a TV (muquirana, só ouvi rádio porque era de graça). Paguei NZD 4 por um suco de laranja e NZD 3 por uma água, os mesmos preços de bares da cidade. Sem exploração.

Melbourne à noite

Melbourne, a primeira no ranking de melhores cidades para se viver no mundo.

Aterrizamos em Melbourne as 22h00, horário local. A Migração foi tranquilíssima. Passei direto. Isso só aconteceu porque meu voo vinha de Auckland. Uma demonstração de confiança na eficiência da Migração do país vizinho. Austrália, Nova Zelândia e Tasmânia em muitos pontos agem como se fossem um só país. Peguei o shuttle da Skybus (sai a cada 10 minutos) até o Hotel Mercure da Therry Street (AUD 30 ida e volta se comprado no Information Centre e AUD 36 na bilheteria ou com o motorista). No caminho para a cidade foi feita uma baldeação onde o passageiro informava o endereço do seu hotel e aguardava um novo shuttle.  O motorista me deixou na porta do Hotel Mercure. Este foi o único hotel que eu reservei diretamente, Como decidi na última hora que iria para Melbourne, avisei a Camila da NZega que eu mesmo iria procurar e reservar o hotel em Melbourne. Deu tudo certo. Check in rapidíssimo, banho, TV e cama.

Lição aprendida #5
As drogas lícitas, como o álcool, estão causando danos em todo o mundo. Um problema a ser enfrentado, pois as consequências para a sociedade e para a economia podem ser enormes e, muitas vezes, irreversíveis.

Lição aprendida #6
Para orientar e estimular a população é importante resgatar a história e manter viva a lembrança daqueles que, com dignidade, trabalho, perseverança e dedicação, usaram seus talentos para erguer a imagem de seu país.
Bons exemplos serão sempre bem vindos!

Contraponto
A produção de bebidas alcoólicas têm participação significativa na economia brasileira. O consumo de bebidas alcoólicas aumenta continuamente entre os jovens adolescentes brasileiros. É um sinal de alerta para nossos governantes que deveriam olhar mais para os nefastos efeitos da bebida na família, na sociedade, para o futuro da nação, e não apenas para a grande arrecadação de impostos gerada por esses produtos (tributos em bebidas alcoólicas representam 80% do preço de venda).

A liderança pelo exemplo é mais eficaz, pois um exemplo vale mais do que mil palavras. A morte de Ayrton Senna foi, para grande parte da sociedade brasileira, muito mais do que "apenas" a perda de um grande esportista. Ele era um exemplo de perseverança e dedicação.  Era exemplo e fonte de motivação para milhões de brasileiros que acreditavam na dignidade do trabalho.
Sem bons exemplos para seguir, toda a nação sente-se desorientada, desamparada - principalmente os mais jovens.

Até a próxima segunda-feira com um novo post!

6 Comments

  1. Olá Miguel, em sua época de kart, além do Senna, lá no meio encontramos o atual vereador Mário Covas Neto.
    Boas histórias e a moral da história (lição aprendida) me faz lembrar das fábulas que nos eram contadas quando crianças.

    • O Zuzinha havia vencido o campeonato brasileiro disputado em Rolândia-PR no ano anterior, depois que o Senna, que liderava com facilidade, abandonou ao bater em um retardatário.
      Eu estava disputando outra categoria. Neste mesmo campeonato brasileiro, fiz o segundo tempo e estava em segundo até o motor travar. Em 1975, eu fiz a pole em todas as etapas do campeonato paulista desse ano.

  2. Vida feita de coincidências, né Miguel?
    Há muito tempo eu havia digitalizado (testando um app de telefone) as fotos que postei no FB. Encontrei o arquivo semana passada, postei e em seguida vejo seu relato da época!
    A descrição da visita à casa do Bruce McLaren foi linda de acompanhar, emocionante, saudosa…
    Seus relatos estão sendo deliciosos!!
    abs!!

    • Mundinho pequeno! Se tivesse aquela foto antes teria incluído no texto, pois ela deve ser de 1974 ou 1975. Valeu!

  3. Brother … Incríveis estas tuas experiências !
    To curtindo DEMAIS !!!

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