Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Mais Auckland

Lições Aprendidas na Austrália e Nova Zelândia: Mais Auckland

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Auckland, NZ
Segunda-feira, 17/03/2014

No dia anterior, domingo, exausto, havia tomado um bom banho e ido dormir as 19h30. Acordei as 02h00, assisti um pouco de televisão e dormi novamente as 03h30. Acordei sem ter a mínima idéia de que horas seriam. Era 07h10,  portanto, somando os dois "pedaços" haviam sido dez boas horas de sono. Nada mal!

Nesse dia, eu teria uma programação intensa, que terminaria no aeroporto de Auckland a caminho de Melbourne. Tomei uma ducha para ficar bem desperto,  fechei a mochila, paguei a conta do hotel e saí para tomar café. O dia estava lindo! Saindo do hotel, notei este carro estacionado (foto abaixo). Fiquei curioso sobre o como funcionaria o esquema "Car by the Hour".

Carro utilizado em sistema sharing.

Carro utilizado em sistema sharing.

Descobri que o Cityhop é um sistema de compartilhamento de veículos. Você pega o carro em qualquer um dos 15 pontos existentes na cidade, como este em frente ao Jucy Hotel, paga NZD15,00 por hora de uso com tudo incluído, inclusive a gasolina, e pode devolvê-lo em outro ponto. Uma solução cada vez mais comum em alguns países e que na Nova Zelândia funciona muito bem. Já está implantado em Auckland, Christchurch e Wellington, a capital do país.

Contornei a praça em frente ao hotel (para não pisar naquela fruta fedida) e comecei a descer a Shortland até encontrar  um pequeno e agradável coffee shop Grassy Knoll perto da Queen  Street. Bem movimentado, em suas mesas ou balcão, homens e mulheres que pareciam trabalhar nas imediações, liam jornais e revistas, conversavam ou já começavam a trabalhar em seus notebooks enquanto tomavam o desjejum. Era só fazer o pedido no balcão, pagar e sentar para esperar seu pedido chegar. A equipe era pequena, mas eficiente.

Manchete sobre redução da desigualdade entre ricos e pobres.

Manchete sobre redução da desigualdade entre ricos e pobres.

Fiz meu pedido, paguei e fui sentar após pegar um exemplar do The New Zealand Herald, um dos principais jornais do país. Fiquei surpreso ao ver que a primeira manchete no alto da primeira página era "NZ's rich v poor: Where we're closing the gaps", comentando onde houve ganho e onde ainda poderiam melhorar a distribuição de renda pela sociedade. O jornal descrevia minuciosamente de onde vinha a diferença de renda entre maoris e "pacíficos" (entenda-se imigrantes polinésios) em relação aos "europeus" (entenda-se descendentes de europeus).
maior foco era para jovens maoris e "pacíficos" entre 18 e 24 anos que representam 27% dos neozelandeses nesta faixa etária. Mostravam grande preocupação com o aumento em 10 anos do indicador NEET (Not in Education, Employment or Training) e do aumento do número de maoris que emigravam para a Austrália evidenciando que a Nova Zelândia estava desperdiçando o seu "dividendo demográfico"

Preocupação em melhorar a qualidade de vida dos maoris (veja a casa da foto)

Preocupação em melhorar a qualidade de vida dos maoris (veja a casa da foto)

Em várias páginas mostravam a grande preocupação do governo neozelandês com a qualidade da distribuição de renda e seu impacto no futuro do país. Descobri que Closing the Gaps é um programa do governo neozelandês, iniciado em 1998, que tem como objetivo reduzir a diferença, econômica e social, entre maoris e não-maoris.
Em resumo, um jornal debatendo em alto nível problemas socioeconômicos do país e concluindo que "havia uma perda enorme do potencial humano com os jovens maoris".

NZ terceira no ranking de Qualidade de Vida e querendo melhorar.

NZ terceira no ranking de Qualidade de Vida e querendo melhorar.

Tudo bem, isso deveria ser a preocupação de qualquer governante sério. Por que a surpresa, então?
É que a Nova Zelândia, em alguns rankings, já tem a terceira melhor distribuição de renda do mundo! Fica atrás apenas da líder Noruega  e da Austrália! E, mesmo assim, ainda se preocupa em melhorar continuamente o desempenho nesse quesito?
Se inveja matasse, eu seria um homem morto!

Bem, acabei de tomar meu café da manhã,  servido com simpatia e presteza, e caminhei até a  agência de turismo NZega que ficava na Queen Street, a menos de 200 metros do coffee shop. Lá  fui muito bem recebido pela Rose (na verdade Rosângela, brasileira de Curitiba) que depois de esclarecer todas as minha dúvidas e responder, pacientemente, todas as minhas perguntas, me entregou os vouchers da viagem não sem antes dar todas as instruções necessárias para que eu não tivesse problemas em minha estadia no país.
Repassou comigo o roteiro da minha viagem e propôs uma alteração na minha viagem: Inicialmente eu iria alugar um carro em Christchurch, mas como a viagem de trem de Christchurch para Greymouth é considerada "uma das mais bonitas do mundo" ela sugeriu que eu deixasse para pegar o carro apenas em Greymouth indo de trem pelos Alpes neozelandeses. Concordei, obviamente.
Para que eu pudesse viajar de Christchurch para Greytown pelo moderno e confortável trem TranzAlpine, ela, por telefone e sem enviar um documento sequer, alterou datas, cancelou reservas e pagamentos, comprometeu-se a pagar eventuais diferenças. Ela apenas se apresentava, contava o que estava acontecendo, pedia as mudanças e era prontamente atendida. Sem nenhuma burocracia. Simples e rápido como tudo deveria ser.

Tudo acertado, começamos a conversar sobre vários assuntos.  Quando o assunto passou a ser a corrupção e violência no Brasil, a Rose, casada com  um neozelandês, contou um fato ocorrido com ela, bastante didático para entender o modelo mental do cidadão neozelandês.

"Morava na Nova Zelândia há alguns anos e já estava casada com um neozelandês quando, certa vez, precisando de atendimento médico, procurei um posto de saúde. Ao ser perguntada pela atendente se eu era neozelandesa, respondi prontamente que não. Fui atendida e, ao final, paguei a consulta e fui embora.  Posteriormente, soube que se tivesse respondido que era neozelandesa, a atendente não solicitaria nenhum documento e a consulta seria gratuita.
Naquele dia, contei o ocorrido para o meu marido e comentei que poderia ter dito que era neozelandesa. Meu marido, curioso, me perguntou:
- Mas,  por que você diria que é neozelandesa?
Sua pergunta me deixou desnorteada. Era tão óbvia a resposta que estranhei como meu marido, tão inteligente, poderia fazer um questionamento tão ... ingênuo. Não demorei muito para entender que mentir não era uma opção para ele. Simplesmente, para meu marido nada justificaria não dizer a verdade. Para o povo neozelandês a mentira destrói a sociedade."

Este seu relato abriu meus olhos para muitas coisas. Seja o carro compartilhado, o governo buscando melhorar a qualidade de vida dos menos privilegiados, o atendimento médico em postos de saúde ou as mudanças que tiveram que ser feitas em meu plano de viagem, tudo isso só funciona bem porque há confiança entre as partes.

Importante lição aprendida #4
A Mentira quebra a Confiança.
A falta de Confiança cria a Burocracia.
A Burocracia impõe dificuldades para a Corrupção fornecer facilidades.
A Mentira é, portanto, a origem, a raiz da Corrupção.

Contraponto
No Brasil, a prática indiscriminada da mentira, disseminada pelo exemplo top-down - segundo o ex-ministro Mailson da Nóbrega "O ex-presidente Lula venceria qualquer concorrente porque mente descaradamente!" -  fez com que o índice que mede a confiança entre pessoas caísse de 10% em 2007 (Revista Época, Outubro de 2007) para apenas 3% em 2010! Sim,  apenas 3% dos brasileiros confiariam em outra pessoa!
Consequências? A grande maioria dos  brasileiros não confia nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Têm medo da polícia, não acredita nos médicos, nos advogados, nos políticos, na qualidade da gasolina do posto, na autenticidade do mendigo, em pesquisas, nos resultados apurados pelas urnas eletrônicas, na segurança pública, em suma, em praticamente nada. No Brasil, até certidão de óbito tem prazo de validade! Sim, só aqui no Brasil certidão de óbito perde a validade  em três meses! Das duas uma: ou os cartórios mentem, ou, no Brasil, as pessoas podem ressuscitar! Ou seja: Desconfiança total! Burocracia total! Corrupção total!
Quando não há confiança, boa parte das atividades econômicas serão apenas para proteção ou defesa, não para produção de bens ou serviços que fortaleçam sua economia. O Brasil é o primeiro do mundo em carros blindados, em sistemas de segurança residencial, utilizamos modernos sistemas de alarme em nossos carros e ainda pagamos para flanelinhas "tomarem conta" de nossos carros, as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, juntas, têm 850 mil pessoas trabalhando em segurança privada ... todas atividades totalmente dispensáveis em ambientes seguros.
Se crescemos economicamente  em cima de nossos problemas nunca poderemos nos livrar deles, pois geraremos desemprego. Um exemplo? O que aconteceria com todos os que trabalham em segurança privada no Rio e em São Paulo se essas cidades ficassem seguras? Ficariam desempregados e voltariam para nos assaltar? Sinuca-de-bico!

A falta de confiança  eleva custos, reduz a velocidade dos processos e aniquila a competitividade.  Sem resgatar a confiança entre as pessoas e nas instituições o futuro do país estará seriamente comprometido.
Se não confiamos em nós mesmos, quem irá confiar em nosso país?

 

5 Comments

  1. Fantástica a lógica da sua “lição aprendida” !!! e q sinuca-de-bico meu amigo…

    • Foram tantos “tapas na cara” recebidos nesta viagem. Estou apenas distribuindo. rsrsrs

  2. “Importante lição aprendida:
    A Mentira quebra a Confiança. A Desconfiança cria a Burocracia. A Burocracia, ao impor dificuldades, torna-se a mãe da Corrupção, fornecedora de facilidades.
    Portanto, a mentira é a causa-raiz da corrupção.”

    BRILHANTE!!

    • Leia o relato da Camila Schimidt nos comentários e perceba como para os neozelandeses falar a verdade é essencial.

  3. Brilhante. Só fico imaginando quantas gerações serão necessárias para conseguir resgatar um valor tão simples como a honestidade… se eu fico indignada com a corrupção no Congresso e afins, mas pago propina para o guarda não me multar ou, como no caso da Rose, encaro com naturalidade a mentira em benefício próprio, que exemplo passo para a geração seguinte? Bofetada na cara da nossa sociedade.

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